sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Medicamentos

Deu na rádio:

Ficou proibido que ‘artistas’ façam propagandas de medicamentos.

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Qual o critério e qual a definição para a palavra ‘artistas’?
O que são artistas, ou melhor, quem são artistas?

Que tipo de arte? O que é arte?

Os medicamentos não deveriam ser vendidos somente sob prescrição médica?

O que é a propaganda?

O que define a proposta da propaganda?
Deveria eu poder escolher a medicação que achar mais bonitinha e tomá-las como se fossem doces balinhas açucaradas?

Roubo do que?

Enquanto tentava entender, re-criar os conceitos sobre a existência dos seres, suas atitudes e razões.

Pego-me a quase engatar a primeira marcha, seguida pela ré.

Vislumbrei esse pensamento em diversas vezes seqüenciais.

Assassinato? Seria eu capaz?

Senti algo embrulhando meu estômago e sufocando minha respiração.

Olhavam-me como se fosse uma presa e eu sentia-me como tal.

Mais uma vez, surpreendo-me com minhas reações, encaro o maior entre eles.

Neste momento, não sinto medo como pensei que sentiria, mas é um enorme sentimento de raiva que me esmaga por dentro confundindo-se com dó.

Por que entráramos em guerra?

Sairíamos todos machucados, certamente.

Passou.

Nada aconteceu. Nada aconteceu?

É a sucessiva seqüência de nadas que nos enfraquece e nos torna inertes.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Entre-palavras

Quem é você?
Tudo o que eu queria ser.

Uma cor:
Vermelho

Uma palavra:
Respeito

Quem foi você?
Eu não fui, eu sou

Como você se vê aos 79 anos?
Pelo espelho

Quando você percebeu que estava madura suficiente para andar sozinha nas ruas?
Ainda não percebi

Por que trocou de profissão?
Cada momento um evento

Por que decidiu continuar seus estudos?
Estudar e aprender enriquece a alma

Qual a sua relevância na sociedade?
Nenhuma

O que você tem feito para cumprir o seu papel como ser humano?
Amo

Qual o papel do ser humano?
Amar

Um cheiro:
Erva doce

Uma idade. Por que?
Seis, porque vem depois do cinco e antes do sete

Uma pessoa:
Eu, não conseguiria viver sem mim

Um sonho:
Deixar a vida sem perder minha identidade

Um pesadelo:
Todo pesadelo merece uma reflexão

Uma realidade:
A desumanidade da humanidade

Uma frase:
Viva o presente de forma que no futuro possa olhar para o passado e se orgulhar

Conte uma história de amor.

E por falar de amor...

Lendo o seu “pai” não pude deixar de pensar no meu, que não me ensinou a ler livros, nem jornais, mas me ensinou a ler os olhos e de um modo diferente a ler a vida.
Não me levou ao cinema, mas me ensinou a dançar, literalmente, e também a acompanhar os passos da vida. Me proibiu de tudo, inclusive brincar e me expressar, porque seu amor era tão grande e seu limite tão pequeno. Me ensinou a ver além das fronteiras da carne. Desrespeitando, me ensinou a respeitar e amar as pessoas pelo que elas são e não pelo que parecem ser.
Com ele aprendi a ouvir o silêncio, a sentir o amor que estava atrás de cada castigo, porque suas mãos me castigavam, mas seus olhos me pediam perdão.
Não é engraçado? Quando se fala de amor só se consegue imaginar carinho, compreensão, ternura... e no entanto, as vezes, ele se encontra bem escondido atrás de uma muralha de absurdos. Porém, se você tiver perseverança e conseguir perfurar esta muralha descobrirá um tesouro.
Sou feliz por ainda ter meu pai e dispor do privilégio de mostrar a ele o quanto o amor dele foi importante para mim.
Aprendi que para a emoção, não existe regras nem padrões, e principalmente que nesta questão de pais e filhos não sei bem quem ensina quem, pois só obtive certeza de todos estes valores, depois que meus filhos vieram e me trouxeram a oportunidade de mostrar o que realmente aprendi, e me ensinaram aquilo que deixei escapar.
Aprendi que amor só é amor quando é incondicional.

O que é o amor?
O amor é como um bolo, ou seja, é o resultado do equilíbrio entre vários ingredientes. Paciência + Tolerância + Bondade + Entrega + Generosidade + Inocência + Humildade + Delicadeza e Sinceridade.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Caminhos

Caminhos cruzaram e os mesmos desviaram e nos distanciaram.

E agora aqui estamos novamente juntos. E isso por quê?

Nesse instante parte de mim junto a você quer estar.

Sorrir e sentir teu cheiro que não sei mais.

Não quero deixar esse momento passar e mais uma vez o tempo levar.

Não é dormindo que penso em você, mas acordada é que meu pensamento segue.

Não queria nisso pensar. Mas o não querer, o meu negar é o mesmo que estar.

E continuo aqui pensando, pedindo e negando o que queria não querer.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

E assim segue

Como um cão que abana o rabo, ou um gato que se nega em morrer em casa...

Insignificantes criaturas significativas que nos tornamos.

Coisinhas que exigem respostas e que tão vulneráveis a um resfriado adoecem.

Matérias que choram quando perdem e que gritam quando ganham.

Desconsidera sentimentos por capricho.

É a união de fatos que nos leva a loucura.

Eu quero perdoar, quero entender e compreender. Aceitar.

Água

Não tem ângulo reto na natureza.

Aprendi na faculdade coisas sobre equilíbrio, harmonia, sobreposição, transparência...

Olhei pela janela, como todos os dias eu faço, o que mais reconheci foi o contraste.
E o contraste que agora é inexistente no sul do país.
Todos juntos, unidos, sem nenhuma outra norma ou regra do que a união.

O mundo continua, a vida luta e as pessoas tentam o suicídio.

Por que continuo viva?
Os animas cometem suicídio?
Será que as plantas se negam a absorver os sais minerais da terra?

Por que pessoas saudáveis não querem mais compartilhar, enquanto outras que menos possuem ainda lutam para sobreviver?

O que faz recomeçar do zero vírgula dois?

O que eu tenho feito para as coisas melhorarem?

Eu tenho que continuar por que a mulher que me pede uma ajuda lá fora é muito parecida com a minha avó.

Nem entre as coisas construídas nas grandes cidades tem equilíbrio e harmonia. Até nisso uma coisa quer se sobrepor à outra e não construir uma grande arte.

É terra, lama, água, muita água que tem tentado lavar a humanidade. Não só no sul do Brasil, mas também na Ásia, na América do Norte...

É muita água que cai e é muita água que falta para beber.

E eu nos pergunto por quê?

A história se refaz a todo tempo, nos faz perder, criar, construir, reconstruir, sensibilizar, rir, chorar pra aprender a amar.

Será que somente pela dor que se chega ao amor?

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Sou eu

- Fala que você ganhou!

Lembro da minha mãe sussurrando aos meus ouvidos na mesa da cozinha enquanto eu fazia a lição de casa.

Tinha 15 anos. O presente que eu queria era a Laira. Laira Beatriz foi o nome que dei na minha cachorrinha, Husky Siberiano. Uma cor linda, marrom e branco, olhos azuis, quase cinza.
Minha mãe me deu escondida do meu pai que dizia que “cachorro grande, faz coco grande!”.

Mas mesmo assim, mais uma vez mamãe realizou meus desejos!

Hoje tenho 28 anos, namorei, casei, engravidei, mudei de casa e Laira, firme e forte acompanhou-me nas mais diversas mutações.

Tem medo de fogos de artifício, faz proezas quando sente medo, escala portões enomes de aproximadamente três metros de altura, quebra vitrôs de quinze centímetros e chega na sala por ele.
Adota filhotes de gatos, nunca me deu passarinhos ou ratos de presente, come abacates e mexiricas que caiem do pé. Participou de muitos, muitos churrascos sem pular na mesa ou ficar com o olhar pidão.
Foram muitas as tardes que passeamos nas ruas do bairro Assunção, acompanhou-me em discussões com namorados, flertes e recentemente discuti na rua com uma louca enquanto Laira fazia suas necessidades.
Laira não sabe latir, faz estranhos sons quando quer transmitir algum sentimento.

(huuuuuuuiiiiiuuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!)

Não rosna para outros cachorros enquanto a provocam na rua, foram tantas as vezes que corríamos e brincávamos de pega-pega no quintal da casa de minha mãe.
Era um tanto indiferente, confesso, tinha vezes que queria conversar e ela não me dava atenção.
Foram poucas as vezes que atrevi-me a dar banho nela, aquela grossa camada de pêlo parecia impermeável, mais fácil era levá-la ao pet-shop.
Nunca fomos viajar juntas, seu porte é muito grande, sem contar a grande quantidade de pêlo que dela se solta.
A cerca de um ano, desenvolveu tumores nas mamas, na pata e recentemente um na parte de trás do pescoço. Nunca reclamou ou chorou.
Hoje, Laira não consegue deitar, cansada, deita suas patas dianteiras e apóia a cabeça ao chão, enquanto as traseiras ficam de pé.
Não debutei, não tive festa de quinze anos, mas tive a Laira! Ainda a tenho, meu coração está apertado, meu olho arde e de nada adianta as lágrimas que dele escorrem, queria estar com ela abraçá-la e dizer o quanto significa pra mim. Mas não posso.
Não está cega, nem banguela, muito menos surda, ainda balança o rabo quando me vê. Tive muitos, quando digo muitos, são realmente muitos, cachorrinhos e outros animais de estimação, mas por nenhum fiquei tão triste por saber que não estaríamos juntos por mais alguns anos.

A Laira é especial, quando dizem que o animal reflete a personalidade do dono, é assim que vejo a Lá, sou eu em animal e sou eu quem estou me perdendo, sou eu quem sinto algo crescendo dentro de mim, sem poder reagir e mesmo assim passar a sensação que está tudo bem.


Sou eu quem vou, sou eu quem fico. Sou eu.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Eu também sei

Não dá pra saber se o sol vai aparecer ou se o tempo irá desabar.
E a cada minuto que passa a angústia aumenta.

Ando de um lado para o outro sem saber que lado optar.

Não quero aceitar, não quero brigar e então aceito.

Me confunde, me acha. Me perco e te acho. Acho.

Eu quero estar ao seu lado, ao mesmo tempo em que nego essa vontade.
Então lhe procuro e finalmente não te acho.
E fico feliz por ter meu desejo não realizado, sinto um alívio descer pela espinha.

A angústia ainda me sufoca e então a ventania começa ao raiar do sol.


Que bom que te vi.

Fico feliz que partiu, mas um dia fez-me sorrir.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

À minha irmã

Dê,

Não lhe agradeci por ter cuidado de mim
como se fosse sua filhinha quando éramos pequenas.

Não lhe agradeci por ter me apresentado o mundo real.
Não lhe agradeci por ter arrumado o caminho pra eu seguir.
Não lhe agradeci por me levar nas festas com as suas amigas.

Não lhe agradeci por ter me dado as mãos
na primeira excursão do colégio.

Não lhe agradeci por levar-me aos seus passeios junto ao seu primeiro namorado.

Não lhe agradeci por ter me emprestado tantas bonecas,
maquiagem, sapatos, blusas e saias.

Não lhe agradeci por ter dividido o quarto comigo por vinte anos.
Não lhe agradeci por ter guardado tantos segredos.
Não lhe agradeci por me ajudar nas lições de casa.

Não lhe agradeci por ser a mais vaidosa
e me deixar ser a mais largada.

Não lhe agradeci por ter me ensinado a sorrir.
Não lhe agradeci por ter me ensinado a sambar.
Não lhe agradeci por ter me feito chorar quando foi para longe.
Não lhe agradeci por ter me ensinado que nem todo o rancor se guarda.
Não lhe agradeci por mostrar o verdadeiro significado de ser irmão.

Hoje, quero agradecer por tudo isso, e mais um montão de coisas que é impossível de contar aqui.

Obrigada por ser minha irmã, companheira, comadre e amiga!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Ser ou sou

Faz tanto tempo, que nem sei mais,
são tantas coisas, que nem sei quais são.

Tudo acaba sendo multiplicado pela dor e dividido pelo amor.

No final tudo que eu sinto é a pura matemática que acabo negando a existência da lógica.

É mais fácil resumir o inexplicável a uma força sobrenatural,
do que analisar o complexo pensamento simplório de existir.

Quem erra sou eu, eu sei.
Quem acerta, também sou eu. Mas não é sempre que sei.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

De papel

As ruas ficaram azuis por algumas horas, aos poucos as vi transformando-se
em verdes e depois vermelhos.

Ao fim da tarde, com a ajuda da garoa fina as cores foram se desfazendo,
rostos despedaçados, letras esfareladas...

Cinco de outubro, as ruas multicoloridas agora estavam esbranquiçadas e nos vidros dos carros, pequenos desenhos molhados surgiam.

Robson quase foi o meu nome.

No dia seguinte, os carros eram de papel e ainda assim alguns permanecem.

Folhetos, santinhos, cartazes, camisetas e banners enfeiavam a minha cidade.

As garagens não mais estacionavam as folhas das árvores que aos poucos caíam neste início de primavera.
As folhas secas davam lugar aos papéis que grudavam nos nossos sapatos, nos pneus dos carros, que arremessados eram pelos seguidores dos famintos partidários.

Tirei meu título de eleitor aos dezesseis anos por admirar ver o preparo dos meus pais neste dia e a ânsia de saber os resultados.
Mas a cada eleição entristeço-me em ver um sonho se tornar realidade e descobrir que era somente um sonho e que tudo era feito de papel.

A cada eleição vejo o cobrir das ruas, casas, cabeças, bolsos e ...somente e.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Equações

Como mais um dia de todos os dias, sinto-me contra a parede.
Sei que não estou, mas sinto assim.

Como se todas as minhas opções em minha frente estivessem, mãos estendidas e dedos ligados,

mas alcançar eu não posso.

Como naqueles sonhos em que se corre, mas não sai do lugar, em que se quer agarrar o copo,

mas a mão o atravessa.

É isso que sinto.

Penso que talvez tenha escolhido o caminho errado naquela bifurcação que passou, mas como saberia o caminho certo se não opinasse?

Acreditei que ‘Todo lugar leva a algum lugar’
Mas deparei-me que todo lugar leva a algum lugar e eu sem senso de direção não sei para onde seguir.

Como sempre faço, espero. Sento. Durmo. Choro. Acordo.
Vestígios de você em mim.

Marquei na pele o dia do nosso encontro e o início de nosso desencontro.

Inalo odores que não imagino de onde vem, sinto um aperto no peito que sei que não é ali que dói.
O que dói não é meu coração, não é o meu corpo, o que dói é acreditar que a você entreguei meu coração, pulmão, fígado...

Desdobro-me em muitas para uma única ser. Uno-me para desvendar a multiplicação. Mas contas nunca foram meu forte.

Talvez esteja eu criando dízimas pensando que são porcentagens em uma equação sem x ou y.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Querer

Por qual razão se esconde?

E assim, sinto os poros de minha pele se abrirem como se tentassem sentir teu cheiro.
Meus pêlos se erguem como se quisessem lhe ver.


E assim se esconde.

Abaixo a cabeça e um sincero e tímido sorriso desperta. Sinto uma saudade que não existe.
A saudade do que não foi. Que simplesmente gostaria que tivesse acontecido.

Há quanto tempo?


Queria poder desejar, queria poder realizar, queria poder. Queria querer.

É só minha mente inventando pensamentos, ações que nunca existiram para minha mão mais uma vez tocar meu peito e sentir a saudade do que não tive.
Ou então ouvir um som baixo e calmo para instigar uma imagem que não sei qual é.
Gostaria de querer.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Vinte e oito

Inicia-se mais uma primavera, mais uma flor que nasce, mais uma vida que renasce, mais uma história que se foi e outra que começa a surgir.
E pensar que há vinte e oito anos nascia uma coisinha, que a esta hora certamente chorava, com frio e com saudade do calor da mãe.
Sim, sinto falta do calor, do abrigo de mãos macias, de beijos doces, de dedos que corriam sobre meus cabelos encaracolados, de lágrimas salgadas e de gritos amargos.

São vinte e oito anos de dias frios, dias quentes, dias chuvosos, ventanias...
São vinte e oito anos que causo preocupações, pensamentos, alegrias, choros, festas, palidez.
Não é sempre que se faz vinte e oito anos, vinte e sete, vinte e seis... Trinta.

Não é sempre que se faz.

E continuo a fazer coisas que já foram feitas, erros que já foram cometidos, acertos que duvidaram e crio dúvidas em erros acertados.
Continuo a questionar-me sobre coisas sem respostas, dos porque sim e porque não. Do, o que você faria se estivesse sozinha num deserto com uma lata sem abridor?
Continuo inventando respostas para as perguntas que não existem e continuo acreditando que as pessoas têm sentimento e que o mundo é colorido, que o sol nasce para todos e que Deus não dá asas a cobra.

Por mais que não acredite em Deus.

Acredito que tudo que é bom dura pouco e que vaso ruim não quebra.
Apesar de já ter quebrado muitos ossos ao longo desses vinte e oito anos.

Há vinte e oito anos os números me perseguem e minha vida continua sem a lógica.

Já tive quatorze, são vinte e oito e não sei quantos mais serão, mas tudo que desejo é continuar na incerteza de saber que eu sei de tudo.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Moedas

Estive relembrando umas de minhas situações mais engraçadas e embaraçosas.

Tínhamos uma pequena copiadora num bairro de São Bernardo do Campo, era a menor loja da rua em frente a faculdade.

Concorrência? Tínhamos muitas, mas paciência e dedicação superavam qualquer falta de estrutura que porventura viríamos a ter.

Não era o meu sonho de profissão, nem nunca havia sonhado em assumir tal posição em minha vida, mas, no entanto, foi uma das experiências mais gratificantes e que engrandeceram meu conhecimento social e que se quer um dia teria imaginado ter.

Por volta das nove horas da noite, tocava o sinal do intervalo e assim, alunos e professores desciam as escadas dos prédios e caminhavam rampa abaixo em direção ao grande portão que separava faculdade da realidade.
Do lado de fora, esperávamos ansiosamente por este momento, pois era quando mais tínhamos movimento e consequentemente, o instante com mais entrada em caixa.

Era final de semestre todos os alunos corriam para poder entregar seus trabalhos dentro do prazo, nós, corríamos para poder atender o maior número de clientes possíveis.

Corria de um lado para o outro, tirando cópia, encadernando, entregando canetas, lápis, borracha, papel milimetrado, grampeando, pegando o dinheiro, fazendo contas e devolvendo o troco, impressão, digitação e o arquivo do disquete que insistia em não querer abrir.

Colorido ou preto e branco?
Quer que corte?
Vai encadernar também?

Puxei a primeira gaveta da mesa de madeira onde ficavam as notas, moedas, cartões e mais uma porção de coisas.

A gaveta saiu na minha mão.

Eram moedas de um, cinco, dez, vinte e cinco, cinqüenta e um real que rolavam por aquele chão liso, claro e frio.

O que eu poderia fazer naquele momento?
Olhei rapidamente para a grande besteira que acabara de fazer, o chão forrado de circunferências douradas e prateadas e desatei-me a rir incansavelmente.

Mas não parei para recolher coisa alguma, comecei a passar por cima das coisas e quando chegava o momento de entregar o troco ao cliente, começava a olhar para o chão na procura de qual moeda deveria curvar-me e apanhar.
Fazia somas mentais de valores e os pegava ao chão.
Nunca havia sequer imaginado de um dia pisar sobre dinheiro, ou melhor, de ter o dinheiro aos meus pés.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Galinhas

Dia Frio, 14 de setembro, onze horas da manhã. Quase falta coragem de levantar da cama e enfrentar um espetáculo infantil. “Cocoricó, uma aventura no teatro”.

Ao som de três cacarejos abrem-se as vermelhas e aveludadas cortinas da grande sala do teatro no Shopping Frei Caneca da úmida manhã de São Paulo.

Impossível de acreditar, mas naquele momento senti algo molhar o meu rosto, quando percebi, uma lágrima corria e um singelo sorriso aparecia em meus lábios.

Nostalgia? Felicidade? Orgulho? Fantasia?

Agudas vozes de pequeninos adultos no palco, crianças esbravejavam na platéia, aplausos durante todo o tempo aconteciam. De repente:

-Júlio! Olha eu aqui! – gritou a pequena menina de longos e lisos cabelos negros.

Complicado imaginarmos o que se passaria naquele instante na mente daquela garotinha emocionada. Mais complicado ainda é imaginar, quando se não é mais uma garotinha.

Enquanto luzes caminhavam, girei minha cabeça e meus olhos acharam senhoras e senhores que riam e aplaudiam, confundindo-se às pequeninas criaturas que gritavam pela atenção das galinhas, ovos, cavalos, porquinho...Piu.
Percebi naquele momento que o tempo era inexistente, a idade...

O que é idade?

A mágica do riso igualou idades, sexos, cores, animais e pessoas.


E no penúltimo domingo de inverno, uma fazenda aconteceu no Centro de São Paulo, aqueceu e poetizou corações gelados de paulistanos apressados em mais um ano que insiste em querer passar.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Estrela



Ele me dava medo, mas sentia que tinha amor.
De longe sentia sua presença, de longe ouvia seu assobio.

Isso fazia com que corresse o mais rápido que pudesse.

Isso fazia com que pulasse, e com as pernas agarrava em sua cintura e assim me pegava no colo soltando uma gargalhada.

De pequena até minha adolescência, o que me lembro é da pele grossa de sua mão, com uma saliência no dedo indicador e unhas limpas.
Embora soubesse que éramos tão diferentes, sentia as persistentes semelhanças nos traços de nossas mãos.
Temperamentos e marcas na pele. Eu me lembro, por isso sinto tanta saudade.

Meu pai não tinha cheiro, muitos achavam que sentimento talvez não tivesse, passava sensação de indiferença.
Não era muito alto, mas aparentava ser bem maior. Era bravo, era engraçado. Era meu pai.

Os óculos grandes demonstravam uma necessidade de ver além, de tudo saber. Fisicamente, sua cabeça era bem grande, mas não era maior que seu coração.
Foi a pessoa mais ausente na presença que já conheci. Com as ações mais contraditórias ao que dizia.

Acordava-nos todas as manhãs, colocava o café sobre a mesa, e por mais que dizia que eu queria chá, lá estava o chá, o café, o leite e o suco.
Bolachas com manteiga sobre o pires.
E o lanche... Empacotado em saquinhos brancos que cuidadosamente tirava o ar criando o vácuo, e assim, selava.

Esqueceu-me algumas vezes na escola, mas lembro-me com carinho dele parado ao portão de casa, acenando até que a perua da escola sumisse ao virar da esquina.

O carinho mais frio que aquecia meu coração.

Dizia ser ateu, mas sempre foi ver-nos cantar no coral da igreja.
Carregava-me nas costas. Abraços carentes de bom dia. Esconde-esconde com o gato amarelo.
Bacias e bacias de salada no sofá da sala de frente a tevê. Segurança, rigidez e amizade.
Chocolates e iogurte. Tanjal. Caldinho da sopa. Groselha com gás.

Meu pai era daqueles caras que concertava tudo, concertava até um coração partido com um sorriso sincero, uma bronca bem dada sem nem se quer emitir qualquer som.

Fazia surpresas, churrasco, dormia na piscina.

Era difícil falar-lhe, sempre lendo, vendo, consertando...
Cedia seu casaco nos dias de frio, chamava-me para tomar um ‘trem’ no bar.
Foram tantos pequenos gestos grandiosos que hoje, faz-me pensar na rigidez dos meus atos, que amolecem meu coração e assim escorrem lágrimas de saudade do colo que tantas vezes me acolheu mesmo sem que eu percebesse.

Vejo partes de mim se transformando aos poucos em pequenos pedaços de meu pai. Vejo também, minha avó sorrindo e rezando todos os dias, com um olhar menos brilhante.

Ele era assim e agora é estrela.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Hã?

Como poderia saber se sou se nem ao menos sei quem sou?
A cada dia uma personalidade se define, a cada dia me surpreendo com a nova pessoa atrás da porta, no espelho do quarto.
Se me perguntassem diretamente se sou criativa e se tivesse que responder se sim ou se não, com certeza a resposta seria sim.
Como não ser criativo nesse mundo de:

-Meu Deus me socorra!

Como não seria criativa se a cada dia crescemos mais e novos problemas surgem e novas respostas dadas a eles precisam ser feitas?

A criatividade é e somente é. Não pode estar.

Pode de certa forma até soar estranho, mas é como se paríssemos aquilo que sempre esteve com a gente. Como se paríssemos a nós mesmos. Não há uma gestação precisa, onde esperamos que a criatura nasça após certo tempo, onde podemos fazer planos para que ocorra tudo bem.

Ainda não é possível fazer um pré-natal com segurança.

A criatura que somos se transforma, se acha e se perde, nasce cresce, evolui e morre. E nasce de novo. Feitos e refeitos a todo instante, conceitos que transformam, mudanças físicas e psíquicas. Como saber o que é realidade e o que é imaginação, quantas vezes não criamos respostas que gostaríamos que fossem reais?

E os sonhos?
Como tudo aquilo foi parar dentro da minha cabeça?

De sempre pra sempre


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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Meias

Talvez o maior temor esteja no esperar a morte. E corres sem parar para ter o tempo de fazer tudo.
Porque acredita que o mais ínfimo milésimo de segundo é sagrado. E esqueces que o sagrado está no instante, na sabedoria, no prazer e na paciência.


Mas o que fazer quando a falta da paciência é o seu maior defeito?
A ansiedade, o entusiasmo, a alegria, o agora!

Não sei, não tenho respostas. Acho que o ‘não sei’ é a frase que mais uso em minhas respostas. Tudo eu não sei, nada eu não sei.

Sei que quando muito ansiosa, vejo que meus nervos e pensamentos agem mais rápido que meu corpo suporta e assim, ele dorme.
Meu corpo dorme profundamente, insônia nunca foi um problema para mim.
Aliás, a sonia é quem me persegue.

Tem vezes que temo ter dormido demais e ter deixado de fazer certas coisas, mas não sou ninguém. E sou ninguém negativo quando não durmo.


De noite sinto frio, mesmo no verão. Não gosto de dormir de meias.
Meias inteiras às vezes fazem falta.
De lã, algodão ou de linho.

Sei que terei muito tempo para dormir quando morrer, mas quando será o dia da minha morte?
E se eu não descansar o suficiente para viver?
E se eu estiver dormindo quando morrer?
E se eu estiver dormindo durante a vida?

E se eu viver?

Não sei, tenho paciência, mas sou ansiosa. Sou tolerante, mas perco a razão.

Eu corri, corro e acredito continuar correndo contra e a favor do tempo, mas durmo.
Por que acreditaria na paz e no amor se não acredito nos seres humanos?

Espero, desejo, acredito e me decepciono.
Desacredito, desespero e tenho ânsia, mas sonho. Estafa.
Pinto os cabelos por vaidade, combino cores, mas por vezes minha razão esfregou em meus olhos que o mundo é daltônico.

Durante o dia carrego sempre um casaco temendo sentir frio, um guarda-chuva para caso chova, uma presilha de cabelo caso sinta calor no pescoço, água caso sinta sede, papel e caneta caso tenha uma boa idéia, escova de dentes e pasta caso tenha que fazer minha higiene bucal, espelho...
Se pudesse, carregaria todas as pessoas que gosto caso sinta saudades, cama caso sinta sono, chinelos, meias caso sinta frio.

Mas meias é sempre a metade do que gostaria que fosse inteiro. Não carrego o inteiro, porque sou sempre a metade. Sou apenas pedaços.
Deixamos sempre pedaços de nós por onde andamos, corremos, falamos, pensamos, limpamos, sujamos. Gosto de ser metade, de deixar metades e de carregar metades. Assim sonho com o inteiro.
Nem quando nascemos somos inteiros. Ficamos metade preso a nossas mães. Quando morremos, deixamos metades nas pessoas que ficaram vivendo.
Talvez não tema que sinta temor por morrer ou por viver. Porque meu temor é apenas a metade.
Então vou comprar pão.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Nadar

Meu maior medo quando iniciei minhas idas a São Paulo de carro era derrubar um motoqueiro pelo caminho. No início até me espremia dentro do carro imaginando que mudaria alguma coisa do lado de fora.

Mas esse reflexo passou com o tempo.

Contabilizei que cerca de duas vezes por semana vejo pelo menos um motoqueiro caído pelo caminho.
Esse dado me fez mais uma vez pensar sobre a vida e consequentemente sobre a morte. Vou dividir parte desse pensamento aqui.

Quantas vezes você não deixou o melhor pedaço do que comia por último para poder saboreá-lo com mais lentidão, prazer e cuidado?
A roupa que comprou para usar em uma ocasião extremamente especial. Ou mesmo aquela calça que reservou em um canto do guarda-roupa esperando que ela lhe sirva por pelo menos mais um dia.
Os planos de fazer a poupança e poder comprar o velho sonho da casa própria.
O carro ao completar 18 anos.
A declaração de amor que não teve coragem de fazer. O abraço que não deu esperando o momento certo para efetuar de fato a troca de energias.
O telefonema para dizer simplesmente que sente saudades.
Ouvir mais uma vez a voz que por tantas vezes lhe deu alegria.
Sentir o cheiro do perfume do travesseiro da sua cama. Ver o olhar da pessoa amada.
Ir ao cinema ver o filme que esperava tanto pela estréia.
Limpar o banheiro. Trocar a lâmpada da sala. Passar a camisa amarrotada que está sobre o sofá da sala, a louça do café da manhã suja na pia. A janela que esqueceu de fechar e deu no jornal da televisão que vai chover ao final da tarde.
Tomar a cervejinha que combinou com os velhos amigos e que ficaram anos sem se encontrar.
Tomar vacina. Pintar o cabelo. Fazer a barba. Depilar a virilha.

E de repente morre. Como assim?

Correu tanto para dar tempo de passar na padaria e levar o pão quentinho pra casa e morre?
Não viu o final da novela das oito!
Não disse para o seu filho que deveria comer verduras.
Não o ensinou a amarrar os sapatos ainda.
Quanto vale a vida? Quanto vale deixar para depois? Quanto vale correr o tempo inteiro e não fazer as refeições? Quanto vale deixar de cortar o cabelo, ou usar meia calça azul porque achou que os outros iam te achar estranho, mas que a você ia dar muito prazer?

Quanto vale?

Vale?

Pra que correr se nem ao menos podes viver? Pra que pensar se nem ao menos podes opinar? Não tens opinião?

E pensar que não aprendeu a nadar porque teve medo de se afogar. Agora nada contra o tempo ou nem se quer nada mais. Nada.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Sinto, somente


Não, eu não quero pensar.

Achas que se sinto é porque somente sinto?

Não, eu sinto somente pela causa de eu ser o que sinto.

Não sinto somente por sentir, mas sou sim o que certamente sinto.

Tudo que eu sinto é humano, é sincero, é vivo. E somente o fato de ser vivo, morrerá.

O que dentro de mim acontece é o sentido do meu sentir, é a razão de então pulsar.

Brigo, peço, desejo e quero.

Pois quando quero, não somente o que eu sinto, simplesmente sou.

Não, não sou confusa. Sou sentimentos, sensibilizados pela razão que não é.
Porque não há razão no ser, muito menos no sentir. Simplesmente é.

Não quero mais pensar. Não agora.

Pois quando penso, traio meu sentimento e quem aje é minha razão.
Minha razão está no meu não ser o que sou.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Iogurte

Todo dia de manhã, no trajeto entre São Bernardo do Campo e São Paulo, pego um trânsito digamos educadamente considerável e entre outras coisas que faço, como um iogurte usando uma colherzinha de café prateada que minha tia embrulha pacientemente em um branco guardanapo de papel.

Praticamente já é um ritual:

- Abro o zíper a sacola de tecido bege;
- Abro a sacola de plástico branca que está dentro da sacola de tecido bege;
- Vou tateando as sacolas internamente até alcançar o iogurte;
- Faço o mesmo com a colherzinha;
- Abro o fino, mas firme, papel que envolve o pote de iogurte;
- Dou umas lambidas até que fique totalmente prateado;
- Misturo com a colherzinha até que a parte cremosa se una a parte mais líquida;
- E finalmente saboreio com moderação.

O trânsito tem aumentado nos últimos tempos e juntamente ao iogurte tenho lido um livro.

Enfim, fiz uma associação entre ler e comer:

. Nem tudo que você come você gosta. Assim como ler;
. Nem tudo que você come, te faz bem. Assim como ler;
. Tem coisas, como filé fe frango, que a gente lembra dele o resto do dia. Assim como ler;
. Tem coisas que você come, como biz, que nem percebe que comeu (É impossível comer um só). Assim como ler;
. Tem vezes que você come, que dá indigestão e diarréia. Assim como muitas coisas que você lê.
. Tem vezes que você come que não faz diferença, miojo por exemplo. Assim como muitas outras coisas que você lê.
. Tem coisas que você come e lembra durante uns dois a três dias, feijão, repolho, ovo, pimentão. Assim como ler.
.Tem coisas que a você come e adora, mousse de chocolate, merengue de morango, e comeria muitas outras vezes. Assim como ler.

Qual será a real parceria entre o estômago e a mente?
Eu pelo menos penso muito pouco de estômago vazio, mas penso menos ainda com sono.

Qual será o paralelo entre sono, estômago e leitura?

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Linhas


Olhei pela janela. Mais uma vez.
Percebi o contraste entre as árvores. E entre a cidade.

Entre na cidade.

Uma tinha as folhas cor-de-rosa, delicadinhas e a outra era verde, parecia mais forte.
Tinha uma árvore careca. Com pequenas folhas secas que pareciam querer pular dos galhos.

O céu estava azul, um azul tão azul que era muito mais do que azul.

Na posição em que eu estava, imaginei um corredor de árvores coloridas e de fundo azul. E entre céu e árvores, estavam os prédios.

Sempre fiquei pensando em como é que se fazia paredes curvas, se os tijolos são quadrados.

Na relação de árvores e céu, não existe ângulo reto, somente finas linhas.

Entre linhas, temos o entrelinhas, linhas do tempo, linhas imaginárias, linhas de pensamento, linhas de costura...

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Maturidade



Eu gosto do silêncio que fica no fundo azul da piscina, de lamber a tampinha do iogurte. Do som da respiração na música do cantor, de comer os pózinhos no final do salgadinho.

De ficar sem sapato.

Não gosto de chinelos.

De dormir de barriga pra cima.

Eu falo dormindo.

De cantar no chuveiro, no carro, de dançar no dia da limpeza. Gosto de filmes que fazem chorar, de tombos que fazem rir, de me irritar com quem grita na minha orelha.

De perder a paciência. Às vezes.

De rir até chorar. Sempre.

De mostrar que não sei de nada, de falar que Eu sei de tudo.

Gosto de saia. De brilhos no cabelo, pintar as unhas de vermelho.

É uma respiração curta, mas parece ser o suficiente. É a parte mais cremosa do doce. É a única hora de silêncio total.

Eu gosto da bordinha da pizza, de roer o osso da bisteca. De correr com os gatos e os cachorros, de espantar as pombas.

De ver as pessoas andando, pensar no que elas podem estar pensando. Gosto de ficar escutando. Pensando. Sentindo. Sonhando. Entender. Desentender.

É quando se cria o eco, é quando eu fico sozinha, é dos poucos momentos que sou eu mesma e mais ninguém.
Quando sinto porque sinto e somente sinto. Quando não preciso demonstrar minha maturidade.

Maturidade? Matu-ridade. Idade madura.

Maduro? Ma-duro.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O vôo da borboleta

Fico feliz por estar triste.

Hoje estou triste, a borboleta de asas cor-de-rosa com bolinhas brancas voou.

Fico triste, pois sei que sentirei saudades do tempo em que fortalecíamos juntas nossas asas.

Descobrimos o tecer, o esperar e o rasgar.

Hoje, cada uma segue um caminho, uma flor, uma árvore, um amor.

Fico feliz, minha amiga voou, achou um caminho e seguiu.

Acreditou no sonho de lagarta.

Deixou comigo a saudade que hoje carrego no pescoço.

Foi curto o espaço de tempo que passamos juntas, mas o suficiente pra criar laços, admiração e porque não amor?

Sentirei falta dos bilhetinhos, paçoquinhas, pão, café, bolo de caneca, pipoca, beber, cair, levantar, conversas de ramal, conversas virtuais, mensagens no celular, Bubbly, sapatos coloridos, meia calça pink, escovar os dentes, frases idênticas, as piores no ipod, traduções...

Voa, amiga, voa, o mundo agora está mais colorido.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sopro


Você vem e me arranha. Mas eu aprendi a assoprar.
Mas talvez um dia o meu sopro não mais alivie a minha dor.
Talvez um dia, não tenha mais força pra assoprar.
Talvez um dia não exista mais vento.
Talvez um dia não me importe quem assopre.

Mas ainda hoje sinto um ardor.
Sinto a minha dor. Ainda sinto.
Seu arranhão pode acabar rasgando a minha pele.
Minha pele que tantos cremes passei.
Que tantos carinhos senti.

Ainda sangra.
Mas posso talvez não me importar com quanto sangue ainda hei derramar.
Sinto medo de um dia não me importar com a cicatriz que irá me deixar.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Impermeável

Não deveria ser uma troca?

Nós todos vivemos. Acho. E qual seria a razão da nossa existência?
Muitas respostas e teorias existem para explicar essa questão, mas acredito que me apoiando em todas as respostas e teorias feitas e refeitas, pode-se chegar somente a uma conclusão:

Independente de qual seja a opinião da pessoa, do ser. Deveríamos “tirar onda”.

Mas em que consiste esse “tirar onda”?

Eu lhe digo:
Aproveitar a oportunidade, não nos prender a conceitos e pré-conceitos, ajudar, dar, pedir, negar, assumir, ver, sentir, manter, levar, trazer, respirar, amar, brigar e relevar. Verbos.

Mas acredito, sobretudo, em prós e contras. Afinal, já dizia um certo alguém:
O que seria do verde se não existisse o amarelo?
Que chato seria se todos usassem cinza, não é? Mas não seria o ideal seria se todos tivessem pelo menos o cinza?

Agora, retorno à pergunta inicial:
Não deveria ser uma troca? Não deveria ser uma troca de boas intenções?
Eu te ajudo e você me ajuda, simplesmente porque quero o seu bem.

Mas o que acontece é:
Eu te ajudo e você me paga e o resto que se vire!

Tem um homem vestido de amarelo lá fora, sob a chuva forte de São Paulo em plena quinta feira de inverno. Em sua roupa amarela sobressaem faixas prateadas luminosas.

Ela é impermeável!

E existem muitas outras pessoas no final desses fios e ondas passam entre nós. E tanto no início quanto no final dessas ondas e fios, existem mais pessoas.

Nem todas vestem amarelo ou cinza, ou mesmo prateado. Ou quem sabe se quer vestem. Mas o que é que eu tenho a ver com isso?

A resposta deveria ser nada, mas é tudo. Porque ainda assim é uma resposta. E sendo tudo, sendo todos, sou eu.

Controle? Pra que? Por quê?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Elementos


Uma vez o clorato de potássio eu encontrei, uma fusão aconteceu.
Ao aquecer, as partículas se separaram e sulfeto de antimônio ele se tornou.

Durante a transição, os componentes se uniram e deu surgimento a um novo elemento, o trióxido de ferro.

Percebi que ao isolar elementos e posteriormente uni-los, em separado, a outros componentes já conhecidos, poderia ter-se semelhantes substâncias. Pois química ainda seria.

Mas nada deu resultado tão significativo do que o clorato de potássio, o sulfeto de antimônio e o trióxido de ferro juntos.

O que determinou o super aquecimento de todos os elementos já encontrados.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Grão

Escuro... Um grão. Mexia. Era matéria e estava vivo.
Envelhece... Mas antes, cresce, enrubesce e amadurece.
Na escuridão, se mexia. Um grão.
Revirando e mexendo, orgânica matéria.
Uma vida que crescia e que poderia nascer.
Contorcia e se abria.
Violeta, cor-de-rosa, amarelo e azul.
O azul mais cor-de-rosa que já se viu.
Sentia.
O cheiro colorido que produzia. Sentia.
Saudade do tempo que não se foi. Dos sonhos que ficaram.
O grão que contorcia, agora crescia.
Pequeno e frágil grão. Linhas e sons.
Liberto se sentia, ainda que preso estivesse pelos pés que não eram.
A cabeça não pensava. Voava.
O grão que libertava das coisas que os pés prendiam, cheirava um cheiro que não sentia.
Um cheiro de saudade.
Os pés futuramente cortados, podados e consumidos.
Perderia a identidade e na saudade para sempre ficaria.
O grão correria se pudesse, se o sonho tivesse.
Sentia o amarelo chamando o cor-de-rosa de azul.
Cores, agora não possuía, porque só sonho ele tinha.
Via sem os olhos, as nuvens que sorriam e o chamavam de grão.
As nuvens que de certo nunca alcançaria, porque um grão para sempre seria.
A colheita chegaria e seus sonhos perdidos para sempre estariam.
Dependia. Como sempre dependeu.
Porque grão ele foi e grão ele era.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Cor-de-rosa


Quando na realidade cheguei e nessa vida me deparei, criei pra mim um mundo particular. Por algum tempo ali estive, e nem se quer com meus pais queria me comunicar.

Teria essa menina altismo?

Não participava, não conversava, não sei o que pensava.
Tudo o que eu sei, foram histórias que me contaram.
Um patinho feio.
O tempo passou e aos poucos permiti que o mundo fizesse parte de mim. Abri uma fresta para que os outros pudessem participar observando.
Lembro-me das fortes dores que sentia na infância. Dores na cabeça e depois dores nas pernas. É tudo que lembro.

Será um choque com a realidade?

Cresci, o mundo aceitei e ele me aceitou.

Será?

E por mais um longo tempo permiti observar e que me observassem, risadas eu dei. Mas sobretudo, lembro-me das vezes que chorei. Tive que aceitar a perda e vibrar com os ganhos.

Eu digo, não é fácil viver, mas aprendemos situações. Enxergar e tentar aceitar as ações. Lembro dos amigos da infância, dos amores da adolescência. Provas de matemática. Salgadinhos no intervalo. Escorregar de calcinha no quintal ensaboado.

A cachorra atropelada na frente de casa. O gato duro na lavanderia. Os pulos no pescoço do meu pai. O esconde-esconde dele com o gato. A chinelada na bunda no banheiro. A cabeçada no poste e depois na árvore.

Andar pela rua cantando alto com as amigas. O soco no filho da professora no anfiteatro. As brigas nos jogos escolares. A briga com o professor de português. O professor de física que comeu a semente da minha maça. A coxinha que fiquei só com a pontinha.

O dia em que ganhei o patinete. A Laira. As bolachas com manteiga em cima do prato de café da manhã. Os acenos de tchau na perua da escola.

O último tchau e o primeiro oi. A primeira lágrima de amor. A última lágrima de dor.

Hoje tento não mais pro meu mundinho voltar. É difícil. A realidade quer me pertubar. É difícil ensinar o que é amar. Pra quem não quer ser amado. É difícil aceitar que o mundo não é cor-de-rosa.

Mas pra que entender? Pra que aceitar? Pra que?

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Somente

Alguma coisa aqui dentro mudou, não sei realmente a mudança que se tornou, nem sei ao certo se mudou ou simplesmente surgiu.
Na verdade, acredito que daqui nunca saiu, sempre esteve e me cutucou. Mas só agora despertou.
Assusto-me só de pensar nas atitudes que essa mudança poderia causar.

Preferia não pensar.

É o tempo que se passa e a consciência que bate, a razão que me atormenta.
A grande questão é que ajo sem pensar, mas penso sobre o que aji.

Tudo me impulsiona. Tudo grita. Tudo pede.

Sou intensa e momentânea.

Será que somente eu penso assim?
Será que essa confusão só acontece dentro da minha cabeça?
Ou será que somente eu me atormento com meus pensamentos?
Será que só a mim a razão cutuca?

Não entendo como podem existir esses humanos 'canibais', insasiáveis pelo poder.
Entendo o tesão pelo poder, mas não aceito a forma de se chegar ao poder.

Dói. Incomoda.

Entristeço-me. Choro.

Busco soluções para não pensar, mas não adianta.

Mas pelo menos, ainda tento.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Música de acampamento

Acabei de me lembrar uma música que a gente cantava no acampamento do colégio, acho bacana deixar gravado aqui:

"Eu tava sentado na beira da estrada comendo banana com pão.
Passou uma velha pediu um pedaço, mas nós não demos não.
Ai, ai, ai ai, nós não demos não!
Sabemos que dar banana pra velha é falta de educação!"

Oco

Tá vazio, tá tudo vazio.

O oco, do desgosto, do desprezo, do desinteresse.
Um ácido que corrói e queima aos poucos, dolorosamente.
É tão vazio e oco que não se sente. Mas dói.
É um machuca e assopra. Sinto um ardor.

Uma dor fina e profunda.

Por que faz isso comigo?
Se só te quero bem?
Por que faz isso comigo?

Me faz oca.
Me faz rir.
Me faz chorar.

Por que faz isso comigo?

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Olhos para que?

Sinto a sensação de tocar sentimentos.
Sentimentos. Sentidos.
Sem-tidos. Eu? Ou o outro?
Olho que tudo vê. E daí?
De que adianta ver, se enxergar não pode.
Janela é só uma passagem. Uma passagem.
Olhos são janelas. Almas, sensibilidade de sentimentos.
Crença. Degradação. Aprimoramento.
Confusão. Conhecimento.
Conectividade e intimidade.


Janelas são passagens de luz, de ar, passagens...

Quando da alma, de pessoas. Não da pessoa física, da matéria orgânica e perecível, mas a passagem de sentimentos, de sensações, de caráter, das faculdades afetivas do homem.
Estranho é ver uma janela da alma. Janelas frente a janelas. Quem sou eu?
As janelas trocam e tocam, passam. Confundem. Fundem.
Conhecem, aproximam-se, encantam e desencantam. Conversam. Conexões que debatem a intimidação de seres desconhecidos.

Falam.

É necessário reconhecer a fala de quem fala, porque quando fala, fala de alguém.
Alguém. Outra janela.
Possibilita a passagem, a transparência do dito, do visto e de novo confunde. A confusão dos sentidos. Sem-tidos. Porque do que adianta ver a janela da janela se nada posso enxergar, porque não conheço, não re-conheço. O conhecimento formador de opinião, da abertura da possibilidade de discussão.
Crianças não deformam, formam. Adolescentes começam a se perder na deformação porque acham que deveriam formar, adultos crescem infelizes porque não entenderam a deformação e se tornam velinhos doentes e incompreendidos por eles mesmos, porque nunca deformaram. Foram fabricados e formados, se tornam vulneráveis e perdem-se.

Transparecem, vêem. Enxergam?

Inovar e renovar, poder fazer e refazer conceitos, pensamentos, possibilitar descobrir. Aumentar o entendimento de conceitos sem cair nos pré-conceitos.
Preconceitos inseridos na condição social e que pré-estipulados foram por um alguém. Uma janela semi-aberta, onde um pequeno feixe de luz ao mesmo tempo em que entra, revela uma imensa escuridão do outro lado de quem a vê.
Um preconceito tão forte que transforma pessoas em pedras, sem cheiro nem cor. Faz pensamentos crescerem e tomarem conta, perdendo a identidade e assumindo responsabilidades impostas e desnecessárias. A sensibilidade desta alma existe, mas não transparece causando tamanha incompreensão e desequilibrando seres que mutam para a transparência e tornando-se idênticos uns aos outros.

Onde está a força que faz transformar o cheiro em sabor? Ver sons e ouvir cores?
Cadê a com-fusão dos sem-tidos?

É engraçado como todo mundo quer ser ridiculamente normal, de hábitos comuns, ninguém é igual a ninguém.
As sensações das diferenças se trocam e tocam entre as janelas e por isso são tão admiráveis e sedutoras as pessoas. A mistura desses sentidos só é tão saboreada porque fundem e difundem, confundem e perdem-se novamente.
Perdidos da realidade, perdidos de sentimentos, perdidos de nós mesmos, para acharmos uns aos outros, acharmos no outro o que eu não sei.
O não sei que é compreendido porque se aceita e respeita, o não sei quem sou, para onde vou, porque vêem, o não sei de nada.
Achar, acreditar e descobrir o eu no outro é como se perder na solidão e ser achado por alguém mais perdido ainda. As perdas se unem e se acham perdendo o seu significado e a necessidade de sua existência. Achar a condição de se deixar perder e descobrir a vulnerabilidade da condição de estar sendo perdido a todo instante. Porque achar, todo mundo acha, mas sentir o peso da perda de ter sido achado é muito maior.

Porque janelas se abrem e se fecham a todo instante, a alma é algo discutível, olhos todo mundo tem. Mas enxergar, reconhecer.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Assuma-te louco

Vivo e convivo na minha complexidade de ser, de existir.
Penso e repenso minha razão. Ou a ausência dela.
Volto ao passado, sobrevivo no presente e tento julgar o futuro.
Aprendi a traduzir sua loucura e descobri a minha ainda maior.

Como quase ninguém, aceita. Mas não muda.

Rende-se a imaturidade da necessária maturidade.
Sente-se triste na felicidade ingênua do sofrimento.

Vivo e convivo com o corpo adulto e o pensamento perdido.
Entende, mas nem por isso compreende.

Odor, tato.

O mais assumido louco ser. A depressão mais linda.
O que te faltas?

Olhe. Sinta.

Ausente a compreensão da admirável loucura de estar afastado.

Não volte.

Assuma-te louco. Somos românticos.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Toca Raul

Ontem eu não chorei.
Mas acordei com os olhos inchados.
E embora o sol estivesse forte lá fora, não usei óculos.
Noite passada, pintei as unhas de carmim e depois adormeci.
Amanheci com o esmalte marcado das fibras do lençol. Mas não arrumei.
Raramente sinto cólica, hoje senti. Mas não tomei chá.
O tanque de gasolina estava na reserva, mas não completei.
Segui meu percurso normal até o trabalho, como se o mundo não tivesse mudado de um dia para o outro.
O sol continua a brilhar, meus dedos ainda estão em minhas mãos e minha mente ainda me guia.
Passei meu batom mais brilhante, o lápis escuro no olho, liguei o rádio e cantei.
Como já dizia Raul: “Não sei onde eu to indo, mas sei que to no meu caminho...”

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Metade


De repente sinto que tudo parou. Estagnou.
Parte de mim seguiu, mas outra parte ficou.
Perdeu-se junto ao seu pensamento cansado, sofrido, perdido.

Tão perdido.

Tão perdido que nem mesmo em minha companhia não se encontrou.
Porque metade de mim se foi e outra metade ficou.
Perturbado pensamento confuso de verdades falsas.

Confusa agora também estou.

Porque minha outra metade ainda não voltou.
Suplico que minha vontade volte. Mas temo.
Temo que não mais se encaixe porque ainda não se encontrou.

Porque a outra metade não conhece a mudança da metade que ficou.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Resfriado

A pele do meu rosto arde nesse inverno quente, meu organismo quase se rende a um possível resfriado, mas minha mente ainda luta para não se entregar.

O que é mais forte? Sou completa somente na união dos dois, será que minhas metades estão em conflito?

Acho que o conflito maior está acontecendo no meu pensamento, no meu sentimento. Essa eterna busca não saber o caminho a seguir.

Os olhos ficam secos pedindo para lacrimejar, meu coração pede o mesmo, mas a minha teimosa razão impede.

O que os outros vão pensar?

Os outros, sempre.

Raros foram os momentos que o pensamento era em mim, por mais que minha consciência acredite que penso em mim, nunca é a forma como ajo ou re-ajo.

Meu pensamento está cansado nessa quinta-feira de inverno (já estamos no inverno?), meu corpo também relutou em se esticar e levantar da cama, mas os despertadores gritaram e minhas narinas secaram e mais um dia iniciou ao som dos meus espirros.

Amigos e Amores

Qual seria a diferença entre a amizade e o amor?


Se amigos são amores, e amores não deixam de ser amigos;
se definição exata não existe para o amor, quem diria para a amizade.


Amigos são companheiros presentes na ausência,

amores que não abandonam.

Amigos são irmãos que a gente escolhe,

que nos conquista,

que nos adere.

São tons alaranjados que mutam para o vermelho, tornando-se azul;


são perfumes que chegam quando nada existe;

são palavras que não se dizem;


Amores e amigos não acabam não diminuem eles sempre estão.

São como aquelas florzinhas que a gente assopra e voa pedacinhos brancos lindos com o vento,


cada um para um lado diferente;

mas que surgiram de uma só flor;

e que daí em diante darão início a um novo ciclo de amor e amizade;

igualmente a o que os criou.


Amigos têm cheiro de chulé de neném,

que a gente sabe que é fedido;

mas adora sentir o cheiro.


Que a gente briga, mas porque ama.