terça-feira, 21 de julho de 2009

Hoje é dia de ritual

Hoje é dia de ritual, um eclipse solar acontece em algum lugar enquanto a lua se esconde aqui.

Peço a lua que ilumine a noite enquanto o sol escurece.

Um ritual em que perpetuam aromas, cores e texturas. Um ritual em que nada se vê, se ouve ou se sente.

Hoje é dia de ritual, uma estrela brilha no céu enquanto outra se apaga na Terra. Uma vela que acende, enquanto outra se apaga com um sopro leve e curto.

O fogo que aquece e ilumina é o mesmo que queima e que arde. O sopro que alivia uma dor é o mesmo que arrepia de frescor.

Hoje é dia de ritual. O açúcar que adoça é o mesmo que adoece. O sal que conserva é o mesmo que incha.

Peço as chamas vermelhas, amarelas e negras que queimem, ardam e sequem o excesso. Que a água sacie a transparência e a palidez. Que o vento carregue. Que o açúcar adoce o gosto salgado e que o esse acabe com o gosto amargo.

Hoje é dia de ritual, em que os sentidos se afloram, misturam e fundem.

terça-feira, 26 de maio de 2009

23 de maio "Dia do sorriso"

“Uma imagem vale mais do que mil palavras” mas mesmo assim:

Não importa o tempo que passe as crianças continuam sendo crianças, as mães sempre dançam esquisito, os agregados mudam…ou não, uns partem e viram estrela e outros vem e dão vida ao nosso olhar.

Não importa o tempo que passe o passado se faz presente e o presente se faz passado.

Essas coisas de código genético são complicadas de entender no colégio, mas fácil de entender na família, brancos, negros, índios ou orientais mas um só sorriso. Dente de leite, dente permanente, ponte, pivô e dentadura.

E assim se fez mais um dia, uma tarde, uma noite…

O dia de contos de fadas em que pude ter o prazer de ver uma princesa caminhar com os pés descalços sentindo os grãos de areia entre os dedos, enquanto jovens idosos se embalavam no balanço e na gangorra as crianças subiam e desciam com seus namorados, noivos, maridos…

No dia do sorriso eu vi princesas, sapos, super-heróis, bêbados e equilibristas.

No dia do sorriso eu chorei de rir e ri por chorar.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Mãe

Sempre que chega o dia das mães, bate aquela sessão nostalgia e lembro-me das festinhas na escola em que cantávamos para as mães no pátio do colégio e entregávamos aquele presentinho feito com todo carinho para…

aquela que atendia o telefone com carinho respondendo: Pode, pode sim comer a bolacha do armário. Aquela que cantava tabuadas no gravador pra eu decorar. Que me dava gotinhas de pinga pra eu achar que era remédio. Que saía correndo do trabalho só pra me levar na aula de natação, aeróbica, órgão, judô, inglês…Que respondia dormindo que eu podia sim dormir na casa da tia. Que conheceu todos os amigos imaginários. Que me ensinou a gostar de Raul Seixas e Osvaldo Montenegro. Que passou madrugadas me esperando voltar das festas. E outras cuidando da minha febre. Que respondia do banheiro a correta conjugação verbal. Que deu-me gatos, cachorros escondido. Que levava ração no telhado para os gatos. Que deu-me apoio quando não o tinha. Que criou um chão quando o tiraram de mim. Que pinta a casa inteira sozinha. Que sorri com dor nas costas. Que bebeu leite congelado. Que usa a cadeira de balanço como guarda-roupas. Que chora na novela. Que nina um nenê que não existe quando está ansiosa. Que ensinou-me a gostar de arte sem entender ao certo o que é arte. Que sempre diz que meu cabelo está feio. Que fazia penteados horríveis no alto da minha cabeça. Que me vestiu de rosa quando queria azul. Que fazia um som ritimado ao entrar em casa com o salto do sapato sobre os tacos. Que arrasta enormes guarda-roupas sozinha. Que planta incansavelmente bromélias. Que aprende onde é o norte. Que faz química, letras, informática, espanhol. Que tinha fôlego quando tive bronquite. Que não sabe correr. Nem gritar. Que diminui a velocidade ao dirigir se está conversando. Que aceitou meus namorados. Que é amiga dos meus amigos. Que minha amiga. E que sempre pergunta ao meu filho se ele não podia ter escolhido uma mãe menos louca.


Mãe eu quero te dizer,
que todo esse mundo eu quero te entregar.
Porque ele sem você não é
mais que uma grande bola boba girando
no imenso azul do céu.

Mãe foi você quem me fez ver
as tristezas e acordes para uma nova canção
E que na vida é preciso perdoar e amar.
Cada segundo que se passa cantando
É para um amanhã melhor

La la la la la…

Não me lembro direito da letra dessa música, mas tenho certeza que a minha mãe lembra.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Entre-palavras

Quem é você?
Todos os meus antepassados.

Uma cor:
Papel em branco.

Uma palavra:
Morte.

Quem foi você?
Uma criança feliz e muito amada. Uma adolescente com problemas de auto estima. Um começo de adulto que nunca se completa.

Como você se vê aos 79 anos?
Dançando desenhos.

Quando você percebeu que estava madura suficiente para andar sozinha nas ruas?
Nunca.

Por que trocou de profissão?
Eu não tenho uma profissão.

Por que decidiu continuar seus estudos?
Um dia eu descobri que gostava.

Qual a sua relevância na sociedade?
A mesma de todos que estão aqui.

O que você tem feito para cumprir o seu papel como ser humano?
Procuro respirar e perceber isso.

Qual o papel do ser humano?
Viver da melhor maneira possível.

Um cheiro:
Do travesseiro da minha mãe.

Uma idade. Por que?
A de hoje. Porque é sempre o melhor momento quando se dá conta de que tem uma vida e se orgulha da sua história.

Uma pessoa:
... é feita de muitas outras.

Um sonho:
Não sentir tanto medo das pessoas.

Um pesadelo:
A morte com sentimento de missão não cumprida.

Uma realidade:
É sempre só um ponto de vista. É preciso tentar ver outros e abrir horizontes.

Uma frase:
I am aware of your existence.

Conte uma história de amor.
Minha mãe reprovou na escola. Meu pai também reprovou algumas vezes. Assim um dia se conheceram. Deram o primeiro beijo no ônibus de excursão da escola voltando do Rio de Janeiro. Ficaram juntos até a morte dele. No meio do caminho nasceram mais amores que se fazem companhia na vida.

O que é o amor?
Querer bem e fazer bem. Sentir saudade. Entender e aceitar; ou entender, não aceitar mas respeitar.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Solamentus

Há tanto pra dizer e nada para falar.

Há tanto que acaba não tendo nada.

São coisas que se igualam pela desigualdade, e isso tem estado cada vez mais claro.

Não é o estar completa, é o sentir completa, é o poder sentir saudade que faz o romance.

É a discussão curada pelo abraço ou uma briga que culmina num sorriso. É o brigar porque se ama.

É o que querer bem. É o estar bem.

Quando tento perceber o porquê de um sorriso perdido no tempo, é que vejo o tanto que já chorei.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Piruá

O Sol insiste em aparecer todas as manhãs e deixar o meu dia mais claro e assim aos poucos insiste também em tentar deixar mais claro os meus pensamentos.

Acordo todas as manhãs dentro de um quarto escuro e abro a janela frente a minha cama na esperança do dia estar escuro e chuvoso e assim me esconder num mundo que eu quiser imaginar.

Mas mais uma vez lá está o Sol que insiste em brilhar.

Por mais que não queira não há como com o pé direito não levantar, este é o único lado que é possível da cama descer, do outro uma branca parede está.

Nos dias frios a água que sai da torneira do banheiro está ainda mais gelada, como se dissesse que não adianta querer ficar adormecida. Nos dias quentes, refresca minha pele deixando uma sensação suave e me acordando para mais um dia.

Sigo meu caminho pelas ruas que deveriam estar cinza pela poluição e pela sujeira mas o que vejo são carros coloridos, enfileirados e ligeiramente desalinhados, nas calçadas as pessoas colorem a paisagem com suas roupas ou tons de pele. Se volto meu olhar para o alto lá estão os fios de eletricidade que traçam linhas num céu desenhado por nuvens.

No farol enquanto deveria estar irritada com o trânsito e insegura com os assaltos de uma cidade grande, um senhor sentado sobre um carrinho de mão exibe pequenos cofrinhos em formato de porquinhos pintados manualmente um a um, uma pintura não detalhista que demonstra um desinteresse pela perfeição e relata a necessidade da arrecadação. Porquinhos de cerâmica colorem o meio fio, sugerindo a calmaria de um dia no campo. A venda de pequenos cofres para aumentar um outro.

Já tentei não me apaixonar, não gostar, negar, mas o Sol insiste em brilhar.

Já tentei não chorar por perdas e desistir mas a cama ainda está encostada na parede e com o pé direito ainda tenho que levantar.

Já tentei odiar, mas os porquinhos ainda enfeitam o meu olhar.

Já tentei também assistir somente a canais de filmes sangrentos ou noticiários ao final da noite, mas em algum canal ainda os desenhos insistem em passar e mais uma vez sorrindo me faz sonhar.

Já tentei também com as pessoas não me importar, mas o telefone ainda insiste em tocar.

Não há como fugir da pipoca que insiste em estourar quando o grão de milho está pronto para se transformar. Até mesmo aqueles que alguns chamam de piruá, sinto prazer em morder e uma carne macia dentro da casca consigo achar.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Gosto não

Não gosto de sentir a pele arder quando queimada de sol. Do cheiro de suor quando seco nas roupas. De pegar um produto na prateleira do supermercado quando está sem preço. Daquela dor fina debaixo das costelas quando respiro errado. De sentir o peso de um resfriado sobre os olhos. De ter que brigar. De evitar uma briga. De ligar para alguém e ninguém atender do outro lado. De quando minhas roupas ficam gastas. De quebrar copos. Das noites de domingo depois das 21:30. De quebrar a unha. De segurar o xixi. De morder o palito de sorvete. De bater o dedinho do pé. De me sentir sozinha. De café frio. De picada de mosquito. De esperar. De sentir o arder da pele sob o dedo quando a unha levanta. De acordar com os olhos inchados depois de chorar durante a noite. De conversar com pessoas vazias de espírito. De ficar de pé na fila do banco até o último osso da coluna doer. De desmaiar. De decorar textos. De fazer conta de divisão. Da marca que fica sobre o banco quando eu suo. Dos mosquitos que tentam me acordar durante a noite. De beliscão. De esconder sentimentos. De quando saem espinhas dentro do nariz. De assistir a uma missa ou culto. De pressa. De ver o meu sangue saindo na seringa. De espinha sem ponta. De morder a bochecha. De quando o computador trava. Da dor que fica no couro cabeludo quando solto o cabelo que ficou preso o dia inteiro. De mentiras e de ter que mentir. De aftas. De toalha molhada sobre o travesseiro. De cheiro de cachorro molhado. De levar susto quando a bexiga estoura enquanto assopro. De mal hálito. De crianças com meleca seca no nariz. Que mexam no meu umbigo. De roupas com propagandas e me sentir um outdoor. De pano de prato novo. De perder o saltinho do sapato. De ver minha mãe chorar. De atitudes sem explicação. De quando quebra a ponta do lápis.