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quinta-feira, 15 de março de 2012

Acreditei

Como a chuva que cai sem parar, como a água que deveria lavar, matar a sede. Como o sol que deveria secar, queimar, que deveria brilhar, que deveria alimentar. Como o ar que deveria me manter viva, o vento que deveria levar a poeira, balançar as folhas das árvores. Como eu que deveria ter nascido só para amar. Como as mãos que deveriam acariciar e da boca só sair palavras doces, os lábios para beijar, os cabelos para proteger e encantar. Como você que deveria ser feliz. Como o alimento deveria alimentar os famintos e o som sair de nossas bocas em formato de risadas. Como as lágrimas que deveriam acalmar. Como a paz deveria reinar e a amizade ser eterna.


Queria de volta o brilho no olhar, as músicas conseguir cantar, as pernas usar para caminhar, os braços abraçar, o coração sentir e a cabeça pensar. Achei que seria mais leve, achei que nas pessoas poderia acreditar e na família sempre poder contar. Achei que o conhecimento me garantiria futuro, que pelo menos aquilo que um dia tive poderia manter.


Queria olhar no espelho e ver meu crescimento, ter orgulho das minhas conquistas, sentir o peso da idade independentemente da vaidade. Queria ter cabelos brancos para usar lilás, um abraço forte todas as noites e agradecer a lua por mais uma noite estar em sua companhia.


Acreditei que a sinceridade sempre fosse a melhor solução, que a mentira levaria a desilusão, que arroz, água e sal fariam parte da minha refeição. Acreditei que aqueles que na minha cabeça passaram a mão, me acompanhariam pela vida. Que os cães sempre abanariam o rabo, que os gatos para sempre miariam e que os pássaros cantariam. Acreditei no amor, na amizade, na paz e na saudade.Acreditei que poderia chorar quando sentisse fome, que com um banho e uma noite bem dormida o dia mudaria. Que o tempo passaria. Acreditei .

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Crença

Não fiz primeira comunhão,
mas já cantei em um coral na igreja.

Na infância, não quis aprender a rezar,
mas já pedi a Deus paciência.

Ganhei uma bíblia, mas nunca tive paciência de ler. Quando me vi em apuros, chorei e perguntei aos céus por quê.

Dei três pulinhos e pedi a São Longuinho.

Fui em velórios e participei de missas de casamentos, sétimo dia....pulei três ondinhas no ano novo.

Acendi velas na areia. Disse “Graças a Deus” e “Se Deus quiser”.
Desviei da entrega na encruzilhada e balbuciei “Salve”.

Fui na festa de São João, comi churrasco e tomei vinho quente. No Natal, acreditei no Papai Noel,
mas nunca vi Jesus.

Na páscoa, já encontrei o coelhinho,
mas nunca ninguém ressuscitou.

Já quis agradecer a Santo Expedito,
mas nunca pedi nada a ele.

Nunca aprendi a gritar “Truco ladrão!”.

Me batizaram e batizei meu filho,
mas até hoje me pergunto por que?

Não pintei os santos e meu cachorro morreu.
Meu gato sumiu e meu pai também.

Roubaram a minha crença e o meu fusca. Chatiei.
A paciência sempre volta, dei três pulinhos e acendi o incenso no altar.

Penso como não sentir frio em dias gelados e ainda sim vestir saia.
Valorizo conseguir a não se render as tentações da moda e ainda não cortar os cabelos.

Gosto de tomar sol na praia usando biquíni.

Casei e fiz promessas.
Pequei e vesti branco.

Não me ensinaram o que é o pecado,
mas ainda sei que já o fiz. No meu enterro quero bexigas coloridas.

Não usei preto no enterro, não abracei o cadáver,
mas chorei a sua ausência.

Não mandei flores,
mas dei abraços sinceros.

Meu pé de feijão no copinho de café murchou, meu peixe pulou do aquário e minha cachorra foi atropelada. Minha tartaruga sumiu.

Puxei as folhinhas das costas das formiguinhas e senti prazer em ver a lesma derreter no sal.

Disse “eu te amo” a muitas pessoas,
mas ainda me indago sobre o que é o amor.

Tive medo do escuro por saber que nunca estaria sozinha.

Já desejei o mal, mas fiz o bem. Nem tudo que é bom, me faz bem.

Descobri a vida, quando conheci a morte.

Fiz o desejo quando achei ter visto o cometa,
mas não me lembro se realizou.

Joguei meus dentes no telhado, tenho outros na gaveta e ainda guardo uns na boca.
Mastigo o chiclete,
mas sempre escovo os dentes.

Acendo a luz quando está escuro e desejo o escuro quando está claro.

Tenho buda na sala e uma cruz no guarda-roupas. Limpei o chão com sal e coloquei um galho de arruda debaixo do colchão. Tenho um anjo no criado mudo.

Briguei na escola,
mas senti dó em ter que agredir.

Judiei do filhote de rato na gaveta do arquivo e chorei quando deram a minha bicicleta.

Senti frio nos pés usando sapatos e suaram quando descalços.
Tomei cerveja na quaresma. Dancei no carnaval.

Aproveitei a vela quando acabou a energia e agradeci meus dias.
Joguei perfume.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Eu sei

Tive uma estranha sensação.
Algo me puxava para a direita, mesmo que para a esquerda quisesse estar.

Caminhei. Não estava embriagada, não estava anestesiada, mas era para direita que meu corpo seguia.

O chão estava distante dos meus pés por mais que nele estivessem apoiados.

Tiraram meu chão.

Queria ter sentido o frio do corpo, mas foi o frio da ausência quem me possuía.

A pequena bolsa ainda ficou sobre a estante. As chaves não abriram mais portas. Ainda escuto seu assobio me chamar.

Meus olhos vazaram sem sentir dor, senti a ausência da dor, senti o oco. O vazio que me consumia.

Senti o desespero da falta, ou o desespero do excesso do oco. Não soube para onde ir, para a direita ou pela esquerda, não estava perdida, não tinha que ir, mas precisava seguir mesmo ficando estática.

Não tinha escolha e não escolhi. Esperei.

Suei o suor da falta de exercício. Foi como o tempo voltasse, o tempo que passou, mas que ficou.
O tempo que não voltou.

Senti sono mesmo sem estar cansada, quis dormir. Meu corpo queria desligar a sensação que minha mente queria inventar, ele quis dormir.
Mas não dormi.

Apaguei as luzes e me banhei. A água estava mais fria do que quente, a pele reclamou, mas minha mente acordou. Esfreguei o corpo como se arrancasse parte da minha ausência de mim mesma.

Chorei até meu rosto inchar e sentir vergonha do som que saía da minha boca. Senti vergonha de mim mesma.

Vergonha mesmo estando sozinha.

Chorei até meu nariz entupir. Meus olhos pesaram.

“Eu sei” era o que a minha voz dizia. Repetia para mim, como se eu mesma quisesse ouvir, como se eu não ouvisse ou se não fosse dona dos meus pensamentos. Falei. Repeti.

Minha cabeça pesou e ouvia seguidamente músicas estranhas que eu mesma havia escolhido.

Quis dormir, mas a cama ainda girava e as lágrimas não secavam. Achei que pudesse estar com febre, quis vomitar, senti frio, esfreguei um pé no outro. “Eu sei”.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Cotidiano

Será que vai fazer frio ou calor? Levo guarda-chuva?

Acho que este leite está azedo!

Não posso esquecer que hoje vence a quadragésima sétima parcela do apartamento.

Queria um cachorro.

Que bonitas essas florzinhas amarelas no canteiro da Via Anchieta!

Mas cachorro no apartamento...preciso comprar uma casa.

Será que o filme é um culto a personalidade?

“Epocler, você mais leve” – Epocler não é remédio para emagrecer, não gostei dessa propaganda, aliás, não sou a favor de propagandas de medicamentos.

Adoro ele, ícone da história, figura fantástica!

Que capacete é esse? Por que ele está usando um capacete cor-de-rosa?

Preciso comprar shampoo e mistura pra preparar a janta de hoje a noite, mas o dinheiro já está no final e preciso comprar pneus novos pro carro, os meus já estão carecas, tadinhos.

Ai, que trânsito é esse? Vou chegar atrasada. Não posso perder o emprego. A mensalidade da escola. E se estiver sem sinal da internet? Preciso arrumar mais dinheiro.

Será que a mãe melhorou? Podia ligar pra ela, né? To sem crédito, que saco. Precisava de um celular pós-pago. Não sei como vivíamos sem celular, ainda lembro dos orelhões vermelhos de ficha, depois ficaram azuis e com cartão. E os bips, aquilo era muito ruim, a mulher do outro lado da linha não entendia nada.

Ontem ela desmaiou.

Nossa, motoqueiro, de novo, sempre tem acidentes com motoqueiros. Acho que foi feio.

Kopenghagen, antes pensava em chocolate, nunca comi, muito caro.

Será que o recurso do projeto vai ser aprovado? A verba só dá para mais seis meses.

Ai tiazinha...não quero balas, tadinha tão velhinha vendendo balas no farol. Preciso ajudar a pagar o convênio da minha avó.

Hoje Kopenhagen é sinônimo de efeito estufa, não é mais só chocolate.

São tantos meninos dormindo nesse asfalto quente. Ouvi na televisão que ficam por até nove meses sem tomar banho.

Já tem enfeites de Natal! Será que vou conseguir comprar presentes esse ano?

Também queria ter meu nome em uma via pública. Bom Pastor, quem foi Bom Pastor? Será que tem Boa Mãe, Bom Pedreiro, Bom Técnico Reprográfico?

Já to cansada e nem acordei direito.

A crise chegou leve no Brasil. Vamos sediar as Olimpíadas de 2016, mas o mundo acaba em 2012. Será que é no começo, no meio ou no fim do ano? Quanto tempo eu ainda tenho? Devo gastar minhas economias? Comprar meu cachorro?

Amanhã é feriado, queria ir a praia, mas tem casamento.

Preciso emagrecer, minhas meias estão furadas.

Que imbecil! Bateu o guidão da moto no meu carro e nem pediu desculpas!

Ela disse que o irmão dela morreu na segunda-feira, parece que foi negligência.

Ar condicionado faz mal, mas está tão calor. Já é verão?

Será que o meu vestido é curto? Ainda bem que já acabei a faculdade, mas não acho que aquilo fosse um vestido, parecia uma blusa, tenho uma parecida só que é preta.

Cor-de-rosa, as rosas tem mais de uma cor. Por que o amarelo não é cor-de-banana? Acho que a rosa mais famosa é a vermelha, não a cor-de-rosa.

Dirigindo em São Paulo aprendi a usar a buzina. Por que não usam setas? Nem olham para o lado?

Se eu fumasse acenderia um cigarro, se não estivesse dirigindo tomaria uma cerveja. Mas e essas leis?

Cheguei! Atrasada, mas cheguei. Cansada, com calor, mas pelo menos não dei sete tiros no carro que me fechou na rua, nem esqueci meu filho dentro do carro. Hoje.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Tenho. É. Quero

Tenho saudade daquele tempo, daquele cheiro, daquele abraço.
Tenho saudade do que ficou.
Tenho medo de perder o que não quis deixar crescer.
Tenho medo que não volte.

É um riso com lágrimas. São olhos que brilham. Aperto no peito.
É o que foi, é o que ficou, é o que está sendo e não sei se será.
É sintonia que se perde.
É o nó na garganta que não sobe nem desce.
É o não poder sentir.

Quero cada dia que pensei.
Quero cada minuto que passou.
Quero guardar cada segundo que senti.
Quero poder imaginar o que poderia ser, ter.

Tenho saudade da saudade que hei de sentir.
Tenho medo da saudade ficar e de saudade não ter.

Tenho.

É.

Quero.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Gosto não

Não gosto de sentir a pele arder quando queimada de sol. Do cheiro de suor quando seco nas roupas. De pegar um produto na prateleira do supermercado quando está sem preço. Daquela dor fina debaixo das costelas quando respiro errado. De sentir o peso de um resfriado sobre os olhos. De ter que brigar. De evitar uma briga. De ligar para alguém e ninguém atender do outro lado. De quando minhas roupas ficam gastas. De quebrar copos. Das noites de domingo depois das 21:30. De quebrar a unha. De segurar o xixi. De morder o palito de sorvete. De bater o dedinho do pé. De me sentir sozinha. De café frio. De picada de mosquito. De esperar. De sentir o arder da pele sob o dedo quando a unha levanta. De acordar com os olhos inchados depois de chorar durante a noite. De conversar com pessoas vazias de espírito. De ficar de pé na fila do banco até o último osso da coluna doer. De desmaiar. De decorar textos. De fazer conta de divisão. Da marca que fica sobre o banco quando eu suo. Dos mosquitos que tentam me acordar durante a noite. De beliscão. De esconder sentimentos. De quando saem espinhas dentro do nariz. De assistir a uma missa ou culto. De pressa. De ver o meu sangue saindo na seringa. De espinha sem ponta. De morder a bochecha. De quando o computador trava. Da dor que fica no couro cabeludo quando solto o cabelo que ficou preso o dia inteiro. De mentiras e de ter que mentir. De aftas. De toalha molhada sobre o travesseiro. De cheiro de cachorro molhado. De levar susto quando a bexiga estoura enquanto assopro. De mal hálito. De crianças com meleca seca no nariz. Que mexam no meu umbigo. De roupas com propagandas e me sentir um outdoor. De pano de prato novo. De perder o saltinho do sapato. De ver minha mãe chorar. De atitudes sem explicação. De quando quebra a ponta do lápis.

Gosto mais

Ainda gosto de lamber a camada espessa que fica na tampinha do iogurte. De amassar os últimos grãos de arroz do prato até que entrem pelos vãos dos dentes do garfo. De cortar as pontas dos cabelos quando fico irritada. De estralar os dedos dos pés antes de pôr os sapatos. De sentir os pequenos chumaços de cabelo deslizando entre meus dedos enquanto estou impaciente e pensativa. De espirrar pelo menos três vezes todas as manhãs ao acordar. De estralar os ossos das costas ao deitar. De chorar o choro contido quando vejo alguém chorando, de compartilhar a dor que não sinto. De rir quando lembro das quedas no pátio da escola ou no meio da sala de aula. Gosto de ver a tolha passando e levando as gotas de água que ficam sobre a minha pele depois do banho. De tentar entender as pessoas pelo modo de vestir, andar, falar e escrever. De cansar de mim e pegar no sono. De me perder no excesso de informação das lojas de R$ 1,99. De espirrar com o cheiro de naftalina do guarda-roupa da minha avó. De ver o desenho do tronco das árvores a procura da luz do sol. De ficar pensando sobre o pensamento que os animais podem ter. De ver os olhos brilhantes de uma criança, aquele brilho de quem ainda se facina com o mundo. Das dobras do rosto da minha avó. De ouvi-la cantar. Da sensação do pano frio e molhado em minha testa quando tenho febre. Das linhas que ficam desenhadas no céu quando passa um avião. Das ruas coloridas quando caem as flores das árvores. De pisar em folhas secas. De correr atrás das pombas. Da dor que ficam nos músculos depois de um dia de muito exercício. De ficar sozinha. De ficar descalça. De sapatos coloridos. De observar a tartaruga. De poder chorar até soluçar. De dormir de coberta. De cochilar no sofá. De ler no metrô. De dormir enquanto o carro balança. De chorar num filme triste. De chorar de tanto rir. De comer flocos de coco doce. De achar dinheiro no bolso do casaco. De pipoca vermelha doce, aquelas que ficam grudadas. De arrancar lascas de tinta seca da parede. De raspar e lamber o brigadeiro que fica grudado na panela. De alho frito. De puxar os fiozinhos da banana quando a descasco. De observar a manteiga derreter sobre o pão quente. De ver a água secando quando se faz um castelo com pingos de areia da praia. De ouvir histórias de vida. De joaninhas e tatu-bola. De ver a lagartixa comendo mosquitos. De assistir desenhos. De sorvete de flocos. De chocolate amargo. De dar susto no gato. De arrancar casquinhas secas dos machucados. De tirar o sutiã. De me equilibrar na beirada da calçada. De imaginar como é sentir frio num dia em que está calor. De imaginar como é sentir calor num dia em que está frio.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Traço

É compreensível por mais que não aceite, mas prefiro as pessoas como pessoas à pessoas como outras.

Gosto de pessoas que mostrem que são humanas na expressão de sentimentos sejam eles felizes, tristes ou indiferentes.

Gosto de ouvir histórias de vida e não saber a moral da história. De ver os olhos brilharem, de observar os lábios se mexerem e as marcas do rosto traçar linhas.

De ver a combinação de tamanhos e cores a cada dia na escolha para se mostrar ao mundo, o modo de posicionar os fios de cabelo, em que perna apóia mais o peso do corpo que carrega. Os braços que andam soltos ou presos nos bolsos.

Pessoas que emitem personalidade e opinião, não pessoas que alimentam ser o reflexo da sociedade, de um ícone, um ídolo. A poesia está na composição, na criação, na sensibilidade da escolha, não no resultado final.

Cada pessoa uma história por mais que se enganem ser o outro. Não se escolhe, se é. É o caminho quem nos torna e não nós que tornamos o caminho. A vida nos faz, inesperadamente, por mais que escolhamos quem seremos na vida.

A imagem é só um reflexo que permite a admiração, como uma orquídea florescendo, não se é a flor, mas a análise que se faz sobre a beleza, força, crescimento, cor e delicadeza.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Maldade

Sabe quanto tempo eu impedi que a maldade saísse de mim?

Sabe quanto tempo eu quis o bem de todo mundo?

E fiz mundos e fundos pra poder ver as coisas cor-de-rosa?

Não, né?

Pois é... a vida é uma caixinha de surpresas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Horizonte

Parece até que eu já sabia.

Será que quando nascemos, sabemos exatamente como será a nossa vida?

No que diz respeito à aceitação, comportamento e atitude?

Parece que eu já sabia, por isso por tanto tempo neguei a minha existência nesse mundo.

Tiraram-me de um casulo e mostraram que fora dele existia um mundo cheio de vida, cores e sabores. Apoiaram-me enquanto fortalecia as asas.

Voei. Cai. Levantei e voei de novo. Pra quê?

Se descobri enquanto voava, a beleza das formas e dos movimentos, dos pensamentos e sentimentos. Mas acima de tudo, descobri que voar não era aquilo e que voava de uma forma errada.

Disseram-me que não deveria sentir o que sentia, pensar o que pensava, fazer o que fazia, comer o que comia...

Pra que voar se meu vôo não é aceito?

Devo eu ao casulo voltar?

Devo eu então viver uma eterna mentira?

Incrivelmente sei que todos pensam como eu, sentem como eu, comem como eu, mas se negam a agir como eu. Portanto estou errada.

Hoje tento me enganar sendo um alguém que não sou, voltando todos os dias ao meu casulo e lamentando um horizonte que nunca será meu.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Depressão

Ainda vou falar sobre isso.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Sou eu

- Fala que você ganhou!

Lembro da minha mãe sussurrando aos meus ouvidos na mesa da cozinha enquanto eu fazia a lição de casa.

Tinha 15 anos. O presente que eu queria era a Laira. Laira Beatriz foi o nome que dei na minha cachorrinha, Husky Siberiano. Uma cor linda, marrom e branco, olhos azuis, quase cinza.
Minha mãe me deu escondida do meu pai que dizia que “cachorro grande, faz coco grande!”.

Mas mesmo assim, mais uma vez mamãe realizou meus desejos!

Hoje tenho 28 anos, namorei, casei, engravidei, mudei de casa e Laira, firme e forte acompanhou-me nas mais diversas mutações.

Tem medo de fogos de artifício, faz proezas quando sente medo, escala portões enomes de aproximadamente três metros de altura, quebra vitrôs de quinze centímetros e chega na sala por ele.
Adota filhotes de gatos, nunca me deu passarinhos ou ratos de presente, come abacates e mexiricas que caiem do pé. Participou de muitos, muitos churrascos sem pular na mesa ou ficar com o olhar pidão.
Foram muitas as tardes que passeamos nas ruas do bairro Assunção, acompanhou-me em discussões com namorados, flertes e recentemente discuti na rua com uma louca enquanto Laira fazia suas necessidades.
Laira não sabe latir, faz estranhos sons quando quer transmitir algum sentimento.

(huuuuuuuiiiiiuuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!)

Não rosna para outros cachorros enquanto a provocam na rua, foram tantas as vezes que corríamos e brincávamos de pega-pega no quintal da casa de minha mãe.
Era um tanto indiferente, confesso, tinha vezes que queria conversar e ela não me dava atenção.
Foram poucas as vezes que atrevi-me a dar banho nela, aquela grossa camada de pêlo parecia impermeável, mais fácil era levá-la ao pet-shop.
Nunca fomos viajar juntas, seu porte é muito grande, sem contar a grande quantidade de pêlo que dela se solta.
A cerca de um ano, desenvolveu tumores nas mamas, na pata e recentemente um na parte de trás do pescoço. Nunca reclamou ou chorou.
Hoje, Laira não consegue deitar, cansada, deita suas patas dianteiras e apóia a cabeça ao chão, enquanto as traseiras ficam de pé.
Não debutei, não tive festa de quinze anos, mas tive a Laira! Ainda a tenho, meu coração está apertado, meu olho arde e de nada adianta as lágrimas que dele escorrem, queria estar com ela abraçá-la e dizer o quanto significa pra mim. Mas não posso.
Não está cega, nem banguela, muito menos surda, ainda balança o rabo quando me vê. Tive muitos, quando digo muitos, são realmente muitos, cachorrinhos e outros animais de estimação, mas por nenhum fiquei tão triste por saber que não estaríamos juntos por mais alguns anos.

A Laira é especial, quando dizem que o animal reflete a personalidade do dono, é assim que vejo a Lá, sou eu em animal e sou eu quem estou me perdendo, sou eu quem sinto algo crescendo dentro de mim, sem poder reagir e mesmo assim passar a sensação que está tudo bem.


Sou eu quem vou, sou eu quem fico. Sou eu.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Ser ou sou

Faz tanto tempo, que nem sei mais,
são tantas coisas, que nem sei quais são.

Tudo acaba sendo multiplicado pela dor e dividido pelo amor.

No final tudo que eu sinto é a pura matemática que acabo negando a existência da lógica.

É mais fácil resumir o inexplicável a uma força sobrenatural,
do que analisar o complexo pensamento simplório de existir.

Quem erra sou eu, eu sei.
Quem acerta, também sou eu. Mas não é sempre que sei.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

De papel

As ruas ficaram azuis por algumas horas, aos poucos as vi transformando-se
em verdes e depois vermelhos.

Ao fim da tarde, com a ajuda da garoa fina as cores foram se desfazendo,
rostos despedaçados, letras esfareladas...

Cinco de outubro, as ruas multicoloridas agora estavam esbranquiçadas e nos vidros dos carros, pequenos desenhos molhados surgiam.

Robson quase foi o meu nome.

No dia seguinte, os carros eram de papel e ainda assim alguns permanecem.

Folhetos, santinhos, cartazes, camisetas e banners enfeiavam a minha cidade.

As garagens não mais estacionavam as folhas das árvores que aos poucos caíam neste início de primavera.
As folhas secas davam lugar aos papéis que grudavam nos nossos sapatos, nos pneus dos carros, que arremessados eram pelos seguidores dos famintos partidários.

Tirei meu título de eleitor aos dezesseis anos por admirar ver o preparo dos meus pais neste dia e a ânsia de saber os resultados.
Mas a cada eleição entristeço-me em ver um sonho se tornar realidade e descobrir que era somente um sonho e que tudo era feito de papel.

A cada eleição vejo o cobrir das ruas, casas, cabeças, bolsos e ...somente e.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Moedas

Estive relembrando umas de minhas situações mais engraçadas e embaraçosas.

Tínhamos uma pequena copiadora num bairro de São Bernardo do Campo, era a menor loja da rua em frente a faculdade.

Concorrência? Tínhamos muitas, mas paciência e dedicação superavam qualquer falta de estrutura que porventura viríamos a ter.

Não era o meu sonho de profissão, nem nunca havia sonhado em assumir tal posição em minha vida, mas, no entanto, foi uma das experiências mais gratificantes e que engrandeceram meu conhecimento social e que se quer um dia teria imaginado ter.

Por volta das nove horas da noite, tocava o sinal do intervalo e assim, alunos e professores desciam as escadas dos prédios e caminhavam rampa abaixo em direção ao grande portão que separava faculdade da realidade.
Do lado de fora, esperávamos ansiosamente por este momento, pois era quando mais tínhamos movimento e consequentemente, o instante com mais entrada em caixa.

Era final de semestre todos os alunos corriam para poder entregar seus trabalhos dentro do prazo, nós, corríamos para poder atender o maior número de clientes possíveis.

Corria de um lado para o outro, tirando cópia, encadernando, entregando canetas, lápis, borracha, papel milimetrado, grampeando, pegando o dinheiro, fazendo contas e devolvendo o troco, impressão, digitação e o arquivo do disquete que insistia em não querer abrir.

Colorido ou preto e branco?
Quer que corte?
Vai encadernar também?

Puxei a primeira gaveta da mesa de madeira onde ficavam as notas, moedas, cartões e mais uma porção de coisas.

A gaveta saiu na minha mão.

Eram moedas de um, cinco, dez, vinte e cinco, cinqüenta e um real que rolavam por aquele chão liso, claro e frio.

O que eu poderia fazer naquele momento?
Olhei rapidamente para a grande besteira que acabara de fazer, o chão forrado de circunferências douradas e prateadas e desatei-me a rir incansavelmente.

Mas não parei para recolher coisa alguma, comecei a passar por cima das coisas e quando chegava o momento de entregar o troco ao cliente, começava a olhar para o chão na procura de qual moeda deveria curvar-me e apanhar.
Fazia somas mentais de valores e os pegava ao chão.
Nunca havia sequer imaginado de um dia pisar sobre dinheiro, ou melhor, de ter o dinheiro aos meus pés.