segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Dia das Crianças

Não dá pra acreditar o quanto crescemos em tão pouco tempo. Mas acredito que guardamos em uma caixinha vermelha no fundo do guarda-roupas as lembranças de nossa infância.

É pra essa caixinha que recorremos em momentos de aflito, tiramos lá do fundo as lembranças que nos dão de volta o sorriso perdido desse mundo maduro. Má-duro.

Dos dias de sol lavando o cachorro com a mangueira e ainda aproveitar o sabão para deslizar sobre o piso do quintal. Ou sair correndo atrás das galinhas que eram pintinhos até poucos dias, pintinhos que ganhamos na feira de cães e gatos.

Dos momentos em que dormimos de exaustão em uma cadeira qualquer, e que nos braços de nossos pais, fomos levados até a cama. Dos dias de febre e que um lápis de cor mudou tudo.

De correr livremente atrás das pombas na praça da igreja. De pegar jacaré na praia. De andar de bicicleta sem rumo. De comer chocolate sem medo de engordar. De brincar de "Mamãe Polenta" no quintal da vó.

De fazer comidinha do kit-frit. De chorar sem medo ou vergonha. Do dia que ficamos banguelas e ainda sentir orgulho disso. De falar com ninguém sem saber o por quê.

De chegar da escola e ver desenho a tarde toda. De acreditar em Papai Noel. De fingir acreditar em Papai Noel pra garantir o presente de Natal.

De namorar o garoto da escola sem ele saber. De tirar 10 na prova. De tirar 0,2 também. De pedir pra mãe pra brincar na casa da amiga.

De brigar com os irmãos e ainda ter que ser o último a dar o último tapa. De brincar de boneca, de carrinho. De ter fôlego pra pular corda, girar bambolê e fazer bolinhas de sabão.

De andar dentro do carrinho de supermercado. De fazer tchauzinho pro carro de traz. De comer pipoca com queijo no ônibus, de tomar sorvete de vento. De ter disposição pra acordar de manhã cedo em pleno domingo só pra comer pastel de queijo na feira.

Pois é... o Dia das Crianças está chegando de novo, e dessa vez não vou ganhar brinquedo, mas vou ganhar mais uma vez o melhor presente do mundo que é o sorriso e o abraço da minha criança.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Crença

Não fiz primeira comunhão,
mas já cantei em um coral na igreja.

Na infância, não quis aprender a rezar,
mas já pedi a Deus paciência.

Ganhei uma bíblia, mas nunca tive paciência de ler. Quando me vi em apuros, chorei e perguntei aos céus por quê.

Dei três pulinhos e pedi a São Longuinho.

Fui em velórios e participei de missas de casamentos, sétimo dia....pulei três ondinhas no ano novo.

Acendi velas na areia. Disse “Graças a Deus” e “Se Deus quiser”.
Desviei da entrega na encruzilhada e balbuciei “Salve”.

Fui na festa de São João, comi churrasco e tomei vinho quente. No Natal, acreditei no Papai Noel,
mas nunca vi Jesus.

Na páscoa, já encontrei o coelhinho,
mas nunca ninguém ressuscitou.

Já quis agradecer a Santo Expedito,
mas nunca pedi nada a ele.

Nunca aprendi a gritar “Truco ladrão!”.

Me batizaram e batizei meu filho,
mas até hoje me pergunto por que?

Não pintei os santos e meu cachorro morreu.
Meu gato sumiu e meu pai também.

Roubaram a minha crença e o meu fusca. Chatiei.
A paciência sempre volta, dei três pulinhos e acendi o incenso no altar.

Penso como não sentir frio em dias gelados e ainda sim vestir saia.
Valorizo conseguir a não se render as tentações da moda e ainda não cortar os cabelos.

Gosto de tomar sol na praia usando biquíni.

Casei e fiz promessas.
Pequei e vesti branco.

Não me ensinaram o que é o pecado,
mas ainda sei que já o fiz. No meu enterro quero bexigas coloridas.

Não usei preto no enterro, não abracei o cadáver,
mas chorei a sua ausência.

Não mandei flores,
mas dei abraços sinceros.

Meu pé de feijão no copinho de café murchou, meu peixe pulou do aquário e minha cachorra foi atropelada. Minha tartaruga sumiu.

Puxei as folhinhas das costas das formiguinhas e senti prazer em ver a lesma derreter no sal.

Disse “eu te amo” a muitas pessoas,
mas ainda me indago sobre o que é o amor.

Tive medo do escuro por saber que nunca estaria sozinha.

Já desejei o mal, mas fiz o bem. Nem tudo que é bom, me faz bem.

Descobri a vida, quando conheci a morte.

Fiz o desejo quando achei ter visto o cometa,
mas não me lembro se realizou.

Joguei meus dentes no telhado, tenho outros na gaveta e ainda guardo uns na boca.
Mastigo o chiclete,
mas sempre escovo os dentes.

Acendo a luz quando está escuro e desejo o escuro quando está claro.

Tenho buda na sala e uma cruz no guarda-roupas. Limpei o chão com sal e coloquei um galho de arruda debaixo do colchão. Tenho um anjo no criado mudo.

Briguei na escola,
mas senti dó em ter que agredir.

Judiei do filhote de rato na gaveta do arquivo e chorei quando deram a minha bicicleta.

Senti frio nos pés usando sapatos e suaram quando descalços.
Tomei cerveja na quaresma. Dancei no carnaval.

Aproveitei a vela quando acabou a energia e agradeci meus dias.
Joguei perfume.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Espero

Sempre espero, mesmo assim ainda me surpreendo.

Des-espero, mesmo assim ainda me surpreendo.

Sempre corre um sorriso no meu rosto ao passo que uma lágrima se esboça.

Eu conheço o que foi, mas os detalhes ainda caminham. Por isso, des-espero.

Mesmo assim espero.

Que sente

Chorou intensamente, nada se ouvia, mas conseguia ver a infelicidade estampada em seu rosto claro.

Não é surpresa alguma presenciar manifestações de diferentes emoções, mas naquele momento era uma cena incomum.

Discretamente passava as pontas dos dedos delicados sobre o rosto como se quisesse limpar o ferimento na alma.

Lavava com pequenas porções de água a perfeita representação do que deveria representar semente a alegria.

Nada se ouvia, compartilhava o silencio externo por um conflito antigo do interno. Nunca se perdoou. Mas sente orgulho pelo que fez, por isso chorava.

Não se deve envergonhar por buscar a felicidade e por expressar a primeira manifestação do sentimento humano.

Chorou. Não era agora a dor a separação forçada, mas a dor da incompreensão.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Pendurado

Agora vejo o mundo emoldurado.
Vejo em detalhes as imagens fragmentadas, que nem sempre são coloridas.

Agora vejo a moldura exposta que protege o desenho.
Vejo o homem velho que chora de emoção no desenho do desejo.

Agora vejo o sentimento representado e sinto o peso da moldura.
Vejo o medo da responsabilidade das pessoas que conversam na representação.

Agora vejo a impaciência da falsa experiência.
Vejo conversas e ouço os falsos brilhos dessa composição.

Ninguém

Eu respondo:
-Sou ninguém.

Hoje consigo ver no que me tornei. Virei àquilo que era antes de ser ninguém.

Sou a imagem, a continuação de uma história que se fez, que se sonhou num outro alguém que hoje não é mais ninguém.

Sinto orgulho do ninguém que me tornei. Do orgulho do alguém que não me conheceu, mas que me moldou.

Acho graça da imagem que se faz da imagem que represento. Sou ninguém. Repito.

Não, não é uma luta, é a construção. É a unidade na multiplicidade, ou o seu oposto.

Há de ser nada, ou nada ser.

Lamento por não conseguir ver o ninguém que sou.

Não sou a velha história, faço parte, somente, da trajetória.

Deixe somente comigo o orgulho do que não fui.

Tenho a pele morena da mistura que se fez, sou a mutação.

Gosto quando me olha, mas sei que não me vê. Enxergas somente o alguém que não sou. Não consigo sentir que entende o ninguém que sou.

Faz parte do show os risos, as lágrimas e os aplausos, mas é só mais um show.

Sou somente ninguém.

domingo, 25 de abril de 2010

Esses dias eu chorei

Esses dias eu chorei. Chorei por chorar.
Da mesma forma que se ri, eu chorei.
Assim como às vezes eu sinto sono, eu chorei.

Chorei um choro sentido, um choro contido, um choro. Eu simplesmente chorei.

Veio sem razão, veio sem a noção, ele simplesmente veio e me tomou.

Ele veio e fez parte de mim.

O senti sendo criado e quando percebi já estava querendo partir.

Assim como qualquer outra necessidade física do ser humano, apareceu, fez parte de mim e se foi.

Esses dias eu chorei. Chorei por chorar.

E não foi difícil achar um motivo para ele crescer e ganhar força.

Assim como uma gargalhada, eu chorei.

Deixei que me tomasse. Deixei-me sentir essa sensação. Chorei até soluçar.

Chorei até a cabeça ficar pesada e os olhos incharem.

Esses dias eu chorei.