terça-feira, 9 de setembro de 2008

Estrela



Ele me dava medo, mas sentia que tinha amor.
De longe sentia sua presença, de longe ouvia seu assobio.

Isso fazia com que corresse o mais rápido que pudesse.

Isso fazia com que pulasse, e com as pernas agarrava em sua cintura e assim me pegava no colo soltando uma gargalhada.

De pequena até minha adolescência, o que me lembro é da pele grossa de sua mão, com uma saliência no dedo indicador e unhas limpas.
Embora soubesse que éramos tão diferentes, sentia as persistentes semelhanças nos traços de nossas mãos.
Temperamentos e marcas na pele. Eu me lembro, por isso sinto tanta saudade.

Meu pai não tinha cheiro, muitos achavam que sentimento talvez não tivesse, passava sensação de indiferença.
Não era muito alto, mas aparentava ser bem maior. Era bravo, era engraçado. Era meu pai.

Os óculos grandes demonstravam uma necessidade de ver além, de tudo saber. Fisicamente, sua cabeça era bem grande, mas não era maior que seu coração.
Foi a pessoa mais ausente na presença que já conheci. Com as ações mais contraditórias ao que dizia.

Acordava-nos todas as manhãs, colocava o café sobre a mesa, e por mais que dizia que eu queria chá, lá estava o chá, o café, o leite e o suco.
Bolachas com manteiga sobre o pires.
E o lanche... Empacotado em saquinhos brancos que cuidadosamente tirava o ar criando o vácuo, e assim, selava.

Esqueceu-me algumas vezes na escola, mas lembro-me com carinho dele parado ao portão de casa, acenando até que a perua da escola sumisse ao virar da esquina.

O carinho mais frio que aquecia meu coração.

Dizia ser ateu, mas sempre foi ver-nos cantar no coral da igreja.
Carregava-me nas costas. Abraços carentes de bom dia. Esconde-esconde com o gato amarelo.
Bacias e bacias de salada no sofá da sala de frente a tevê. Segurança, rigidez e amizade.
Chocolates e iogurte. Tanjal. Caldinho da sopa. Groselha com gás.

Meu pai era daqueles caras que concertava tudo, concertava até um coração partido com um sorriso sincero, uma bronca bem dada sem nem se quer emitir qualquer som.

Fazia surpresas, churrasco, dormia na piscina.

Era difícil falar-lhe, sempre lendo, vendo, consertando...
Cedia seu casaco nos dias de frio, chamava-me para tomar um ‘trem’ no bar.
Foram tantos pequenos gestos grandiosos que hoje, faz-me pensar na rigidez dos meus atos, que amolecem meu coração e assim escorrem lágrimas de saudade do colo que tantas vezes me acolheu mesmo sem que eu percebesse.

Vejo partes de mim se transformando aos poucos em pequenos pedaços de meu pai. Vejo também, minha avó sorrindo e rezando todos os dias, com um olhar menos brilhante.

Ele era assim e agora é estrela.

3 comentários:

Je disse...

Aw :)

Ma disse...

Olá minha querida, é o Amor que torna para nós, o rosto de uma pessoa, querido para sempre. O fascínio de amar, a saudade que faz voltar a lembrar e sonhar, sua ternura e carinho foram expressados de forma espetacular, um sentimento tomou meu ser, um misto de orgulho de ti e saudades daquele tempo. Parabéns,TE AMO,má.

Tatiana Carlotti disse...

Lindo texto. A questão da presença e da ausência. Emociona. beijo.