Quando num torcer de cores saírem bolhas de sabão ou quando
numa sombra ouvir o cantar dos peixes, serei amarela, laranja e vermelha. Serei
completa como três pontinhos! Um atrás do outro, em fila...de mesmo tamanho e
distância. Serei eterna como o cheiro de chocolate com menta.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
meu
Onde foi parar aquela menina, aquele rapaz? Quem era aquela
menina? Quem era aquele rapaz? Era aquela menina, aquele rapaz?
Aquela menina que enfrentava qualquer rapaz! Aquele rapaz
que sentia dor e chorava compulsivamente como uma menina.
Cadê ele? Cadê ela?
Fundiram na multidão. Confundiram a multidão.
Aquela menina, aquele menino, são eles! São todos eles!
Como se cúmplices por serem irmãos. E assim, dessa forma, um
laço de dor se cria.
E todas as dores do mundo são minhas, assim como as
alegrias.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
O rabo da lagartixa
E assim, em milhares de caquinhos ficaram seus sentimentos.
Caquinhos que se regeneram como rabo de lagartixa, mas que
se quebram em milhares de outros caquinhos.
Como os olhos que tentam falar o que a boca não solta, mas
que também não se entende.
A letra do olhar que não se lê. A letra do olhar que não se
fala. Que não tem som.
Como os caquinhos que não se grudam.
E assim fica. Meio quebrado, meio colado, meio dito, meio
olhado.A lagartixa que pacientemente espera o vacilo do pequenino mosquito. E gelada segue seu rumo sem rabo.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
de cor cinza
e o papel continua cheio de linhas por escrever. o lápis inteiro esperando ser apontado e a borracha a soltar seus fiapos. o livro com suas páginas a serem viradas.
não sai, nada sai.
fica aqui dentro guardado, perdido esperando sei lá o que.
fotos a serem reveladas.
realidades alteradas pela dificuldade, personalidades escondidas pelo medo.
pintam-se os cabelos, unhas, olhos e a boca.
veste-se com a roupa mais bonita e menos confortável.
sapatos que machucam os pés e calos que marcam uma transformação.
a cor já não pinta mais o desenho que o lápis não riscou porque os pensamentos ainda estão cinzas.
e cinzas foram o que viraram os sonhos que não foram sonhados.
não sai, nada sai.
fica aqui dentro guardado, perdido esperando sei lá o que.
fotos a serem reveladas.
realidades alteradas pela dificuldade, personalidades escondidas pelo medo.
pintam-se os cabelos, unhas, olhos e a boca.
veste-se com a roupa mais bonita e menos confortável.
sapatos que machucam os pés e calos que marcam uma transformação.
a cor já não pinta mais o desenho que o lápis não riscou porque os pensamentos ainda estão cinzas.
e cinzas foram o que viraram os sonhos que não foram sonhados.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
verde cheiro da água
verde como grama nova depois da chuva,
pequenas e delicadas
curvas desenhavam o seu corpo.
cheirosa como a água que está por vir depois da seca.
em mim chega nos braços de quem sorri.
hoje eu ganhei um pé de alface.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Acreditei
Como a chuva que cai sem parar, como a água que deveria lavar, matar a sede. Como o sol que deveria secar, queimar, que deveria brilhar, que deveria alimentar. Como o ar que deveria me manter viva, o vento que deveria levar a poeira, balançar as folhas das árvores. Como eu que deveria ter nascido só para amar. Como as mãos que deveriam acariciar e da boca só sair palavras doces, os lábios para beijar, os cabelos para proteger e encantar. Como você que deveria ser feliz. Como o alimento deveria alimentar os famintos e o som sair de nossas bocas em formato de risadas. Como as lágrimas que deveriam acalmar. Como a paz deveria reinar e a amizade ser eterna.
Queria de volta o brilho no olhar, as músicas conseguir cantar, as pernas usar para caminhar, os braços abraçar, o coração sentir e a cabeça pensar. Achei que seria mais leve, achei que nas pessoas poderia acreditar e na família sempre poder contar. Achei que o conhecimento me garantiria futuro, que pelo menos aquilo que um dia tive poderia manter.
Queria olhar no espelho e ver meu crescimento, ter orgulho das minhas conquistas, sentir o peso da idade independentemente da vaidade. Queria ter cabelos brancos para usar lilás, um abraço forte todas as noites e agradecer a lua por mais uma noite estar em sua companhia.
Acreditei que a sinceridade sempre fosse a melhor solução, que a mentira levaria a desilusão, que arroz, água e sal fariam parte da minha refeição. Acreditei que aqueles que na minha cabeça passaram a mão, me acompanhariam pela vida. Que os cães sempre abanariam o rabo, que os gatos para sempre miariam e que os pássaros cantariam. Acreditei no amor, na amizade, na paz e na saudade.Acreditei que poderia chorar quando sentisse fome, que com um banho e uma noite bem dormida o dia mudaria. Que o tempo passaria. Acreditei .
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Dia das Crianças
Não dá pra acreditar o quanto crescemos em tão pouco tempo. Mas acredito que guardamos em uma caixinha vermelha no fundo do guarda-roupas as lembranças de nossa infância.
É pra essa caixinha que recorremos em momentos de aflito, tiramos lá do fundo as lembranças que nos dão de volta o sorriso perdido desse mundo maduro. Má-duro.
Dos dias de sol lavando o cachorro com a mangueira e ainda aproveitar o sabão para deslizar sobre o piso do quintal. Ou sair correndo atrás das galinhas que eram pintinhos até poucos dias, pintinhos que ganhamos na feira de cães e gatos.
Dos momentos em que dormimos de exaustão em uma cadeira qualquer, e que nos braços de nossos pais, fomos levados até a cama. Dos dias de febre e que um lápis de cor mudou tudo.
De correr livremente atrás das pombas na praça da igreja. De pegar jacaré na praia. De andar de bicicleta sem rumo. De comer chocolate sem medo de engordar. De brincar de "Mamãe Polenta" no quintal da vó.
De fazer comidinha do kit-frit. De chorar sem medo ou vergonha. Do dia que ficamos banguelas e ainda sentir orgulho disso. De falar com ninguém sem saber o por quê.
De chegar da escola e ver desenho a tarde toda. De acreditar em Papai Noel. De fingir acreditar em Papai Noel pra garantir o presente de Natal.
De namorar o garoto da escola sem ele saber. De tirar 10 na prova. De tirar 0,2 também. De pedir pra mãe pra brincar na casa da amiga.
De brigar com os irmãos e ainda ter que ser o último a dar o último tapa. De brincar de boneca, de carrinho. De ter fôlego pra pular corda, girar bambolê e fazer bolinhas de sabão.
De andar dentro do carrinho de supermercado. De fazer tchauzinho pro carro de traz. De comer pipoca com queijo no ônibus, de tomar sorvete de vento. De ter disposição pra acordar de manhã cedo em pleno domingo só pra comer pastel de queijo na feira.
Pois é... o Dia das Crianças está chegando de novo, e dessa vez não vou ganhar brinquedo, mas vou ganhar mais uma vez o melhor presente do mundo que é o sorriso e o abraço da minha criança.
É pra essa caixinha que recorremos em momentos de aflito, tiramos lá do fundo as lembranças que nos dão de volta o sorriso perdido desse mundo maduro. Má-duro.
Dos dias de sol lavando o cachorro com a mangueira e ainda aproveitar o sabão para deslizar sobre o piso do quintal. Ou sair correndo atrás das galinhas que eram pintinhos até poucos dias, pintinhos que ganhamos na feira de cães e gatos.
Dos momentos em que dormimos de exaustão em uma cadeira qualquer, e que nos braços de nossos pais, fomos levados até a cama. Dos dias de febre e que um lápis de cor mudou tudo.
De correr livremente atrás das pombas na praça da igreja. De pegar jacaré na praia. De andar de bicicleta sem rumo. De comer chocolate sem medo de engordar. De brincar de "Mamãe Polenta" no quintal da vó.
De fazer comidinha do kit-frit. De chorar sem medo ou vergonha. Do dia que ficamos banguelas e ainda sentir orgulho disso. De falar com ninguém sem saber o por quê.
De chegar da escola e ver desenho a tarde toda. De acreditar em Papai Noel. De fingir acreditar em Papai Noel pra garantir o presente de Natal.
De namorar o garoto da escola sem ele saber. De tirar 10 na prova. De tirar 0,2 também. De pedir pra mãe pra brincar na casa da amiga.
De brigar com os irmãos e ainda ter que ser o último a dar o último tapa. De brincar de boneca, de carrinho. De ter fôlego pra pular corda, girar bambolê e fazer bolinhas de sabão.
De andar dentro do carrinho de supermercado. De fazer tchauzinho pro carro de traz. De comer pipoca com queijo no ônibus, de tomar sorvete de vento. De ter disposição pra acordar de manhã cedo em pleno domingo só pra comer pastel de queijo na feira.
Pois é... o Dia das Crianças está chegando de novo, e dessa vez não vou ganhar brinquedo, mas vou ganhar mais uma vez o melhor presente do mundo que é o sorriso e o abraço da minha criança.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Crença
Não fiz primeira comunhão,
mas já cantei em um coral na igreja.
Na infância, não quis aprender a rezar,
mas já pedi a Deus paciência.
Ganhei uma bíblia, mas nunca tive paciência de ler. Quando me vi em apuros, chorei e perguntei aos céus por quê.
Dei três pulinhos e pedi a São Longuinho.
Fui em velórios e participei de missas de casamentos, sétimo dia....pulei três ondinhas no ano novo.
Acendi velas na areia. Disse “Graças a Deus” e “Se Deus quiser”.
Desviei da entrega na encruzilhada e balbuciei “Salve”.
Fui na festa de São João, comi churrasco e tomei vinho quente. No Natal, acreditei no Papai Noel,
mas nunca vi Jesus.
Na páscoa, já encontrei o coelhinho,
mas nunca ninguém ressuscitou.
Já quis agradecer a Santo Expedito,
mas nunca pedi nada a ele.
Nunca aprendi a gritar “Truco ladrão!”.
Me batizaram e batizei meu filho,
mas até hoje me pergunto por que?
Não pintei os santos e meu cachorro morreu.
Meu gato sumiu e meu pai também.
Roubaram a minha crença e o meu fusca. Chatiei.
A paciência sempre volta, dei três pulinhos e acendi o incenso no altar.
Penso como não sentir frio em dias gelados e ainda sim vestir saia.
Valorizo conseguir a não se render as tentações da moda e ainda não cortar os cabelos.
Gosto de tomar sol na praia usando biquíni.
Casei e fiz promessas.
Pequei e vesti branco.
Não me ensinaram o que é o pecado,
mas ainda sei que já o fiz. No meu enterro quero bexigas coloridas.
Não usei preto no enterro, não abracei o cadáver,
mas chorei a sua ausência.
Não mandei flores,
mas dei abraços sinceros.
Meu pé de feijão no copinho de café murchou, meu peixe pulou do aquário e minha cachorra foi atropelada. Minha tartaruga sumiu.
Puxei as folhinhas das costas das formiguinhas e senti prazer em ver a lesma derreter no sal.
Disse “eu te amo” a muitas pessoas,
mas ainda me indago sobre o que é o amor.
Tive medo do escuro por saber que nunca estaria sozinha.
Já desejei o mal, mas fiz o bem. Nem tudo que é bom, me faz bem.
Descobri a vida, quando conheci a morte.
Fiz o desejo quando achei ter visto o cometa,
mas não me lembro se realizou.
Joguei meus dentes no telhado, tenho outros na gaveta e ainda guardo uns na boca.
Mastigo o chiclete,
mas sempre escovo os dentes.
Acendo a luz quando está escuro e desejo o escuro quando está claro.
Tenho buda na sala e uma cruz no guarda-roupas. Limpei o chão com sal e coloquei um galho de arruda debaixo do colchão. Tenho um anjo no criado mudo.
Briguei na escola,
mas senti dó em ter que agredir.
Judiei do filhote de rato na gaveta do arquivo e chorei quando deram a minha bicicleta.
Senti frio nos pés usando sapatos e suaram quando descalços.
Tomei cerveja na quaresma. Dancei no carnaval.
Aproveitei a vela quando acabou a energia e agradeci meus dias.
Joguei perfume.
mas já cantei em um coral na igreja.
Na infância, não quis aprender a rezar,
mas já pedi a Deus paciência.
Ganhei uma bíblia, mas nunca tive paciência de ler. Quando me vi em apuros, chorei e perguntei aos céus por quê.
Dei três pulinhos e pedi a São Longuinho.
Fui em velórios e participei de missas de casamentos, sétimo dia....pulei três ondinhas no ano novo.
Acendi velas na areia. Disse “Graças a Deus” e “Se Deus quiser”.
Desviei da entrega na encruzilhada e balbuciei “Salve”.
Fui na festa de São João, comi churrasco e tomei vinho quente. No Natal, acreditei no Papai Noel,
mas nunca vi Jesus.
Na páscoa, já encontrei o coelhinho,
mas nunca ninguém ressuscitou.
Já quis agradecer a Santo Expedito,
mas nunca pedi nada a ele.
Nunca aprendi a gritar “Truco ladrão!”.
Me batizaram e batizei meu filho,
mas até hoje me pergunto por que?
Não pintei os santos e meu cachorro morreu.
Meu gato sumiu e meu pai também.
Roubaram a minha crença e o meu fusca. Chatiei.
A paciência sempre volta, dei três pulinhos e acendi o incenso no altar.
Penso como não sentir frio em dias gelados e ainda sim vestir saia.
Valorizo conseguir a não se render as tentações da moda e ainda não cortar os cabelos.
Gosto de tomar sol na praia usando biquíni.
Casei e fiz promessas.
Pequei e vesti branco.
Não me ensinaram o que é o pecado,
mas ainda sei que já o fiz. No meu enterro quero bexigas coloridas.
Não usei preto no enterro, não abracei o cadáver,
mas chorei a sua ausência.
Não mandei flores,
mas dei abraços sinceros.
Meu pé de feijão no copinho de café murchou, meu peixe pulou do aquário e minha cachorra foi atropelada. Minha tartaruga sumiu.
Puxei as folhinhas das costas das formiguinhas e senti prazer em ver a lesma derreter no sal.
Disse “eu te amo” a muitas pessoas,
mas ainda me indago sobre o que é o amor.
Tive medo do escuro por saber que nunca estaria sozinha.
Já desejei o mal, mas fiz o bem. Nem tudo que é bom, me faz bem.
Descobri a vida, quando conheci a morte.
Fiz o desejo quando achei ter visto o cometa,
mas não me lembro se realizou.
Joguei meus dentes no telhado, tenho outros na gaveta e ainda guardo uns na boca.
Mastigo o chiclete,
mas sempre escovo os dentes.
Acendo a luz quando está escuro e desejo o escuro quando está claro.
Tenho buda na sala e uma cruz no guarda-roupas. Limpei o chão com sal e coloquei um galho de arruda debaixo do colchão. Tenho um anjo no criado mudo.
Briguei na escola,
mas senti dó em ter que agredir.
Judiei do filhote de rato na gaveta do arquivo e chorei quando deram a minha bicicleta.
Senti frio nos pés usando sapatos e suaram quando descalços.
Tomei cerveja na quaresma. Dancei no carnaval.
Aproveitei a vela quando acabou a energia e agradeci meus dias.
Joguei perfume.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Espero
Sempre espero, mesmo assim ainda me surpreendo.
Des-espero, mesmo assim ainda me surpreendo.
Sempre corre um sorriso no meu rosto ao passo que uma lágrima se esboça.
Eu conheço o que foi, mas os detalhes ainda caminham. Por isso, des-espero.
Mesmo assim espero.
Des-espero, mesmo assim ainda me surpreendo.
Sempre corre um sorriso no meu rosto ao passo que uma lágrima se esboça.
Eu conheço o que foi, mas os detalhes ainda caminham. Por isso, des-espero.
Mesmo assim espero.
Que sente
Chorou intensamente, nada se ouvia, mas conseguia ver a infelicidade estampada em seu rosto claro.
Não é surpresa alguma presenciar manifestações de diferentes emoções, mas naquele momento era uma cena incomum.
Discretamente passava as pontas dos dedos delicados sobre o rosto como se quisesse limpar o ferimento na alma.
Lavava com pequenas porções de água a perfeita representação do que deveria representar semente a alegria.
Nada se ouvia, compartilhava o silencio externo por um conflito antigo do interno. Nunca se perdoou. Mas sente orgulho pelo que fez, por isso chorava.
Não se deve envergonhar por buscar a felicidade e por expressar a primeira manifestação do sentimento humano.
Chorou. Não era agora a dor a separação forçada, mas a dor da incompreensão.
Não é surpresa alguma presenciar manifestações de diferentes emoções, mas naquele momento era uma cena incomum.
Discretamente passava as pontas dos dedos delicados sobre o rosto como se quisesse limpar o ferimento na alma.
Lavava com pequenas porções de água a perfeita representação do que deveria representar semente a alegria.
Nada se ouvia, compartilhava o silencio externo por um conflito antigo do interno. Nunca se perdoou. Mas sente orgulho pelo que fez, por isso chorava.
Não se deve envergonhar por buscar a felicidade e por expressar a primeira manifestação do sentimento humano.
Chorou. Não era agora a dor a separação forçada, mas a dor da incompreensão.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Pendurado
Agora vejo o mundo emoldurado.
Vejo em detalhes as imagens fragmentadas, que nem sempre são coloridas.
Agora vejo a moldura exposta que protege o desenho.
Vejo o homem velho que chora de emoção no desenho do desejo.
Agora vejo o sentimento representado e sinto o peso da moldura.
Vejo o medo da responsabilidade das pessoas que conversam na representação.
Agora vejo a impaciência da falsa experiência.
Vejo conversas e ouço os falsos brilhos dessa composição.
Vejo em detalhes as imagens fragmentadas, que nem sempre são coloridas.
Agora vejo a moldura exposta que protege o desenho.
Vejo o homem velho que chora de emoção no desenho do desejo.
Agora vejo o sentimento representado e sinto o peso da moldura.
Vejo o medo da responsabilidade das pessoas que conversam na representação.
Agora vejo a impaciência da falsa experiência.
Vejo conversas e ouço os falsos brilhos dessa composição.
Ninguém
Eu respondo:
-Sou ninguém.
Hoje consigo ver no que me tornei. Virei àquilo que era antes de ser ninguém.
Sou a imagem, a continuação de uma história que se fez, que se sonhou num outro alguém que hoje não é mais ninguém.
Sinto orgulho do ninguém que me tornei. Do orgulho do alguém que não me conheceu, mas que me moldou.
Acho graça da imagem que se faz da imagem que represento. Sou ninguém. Repito.
Não, não é uma luta, é a construção. É a unidade na multiplicidade, ou o seu oposto.
Há de ser nada, ou nada ser.
Lamento por não conseguir ver o ninguém que sou.
Não sou a velha história, faço parte, somente, da trajetória.
Deixe somente comigo o orgulho do que não fui.
Tenho a pele morena da mistura que se fez, sou a mutação.
Gosto quando me olha, mas sei que não me vê. Enxergas somente o alguém que não sou. Não consigo sentir que entende o ninguém que sou.
Faz parte do show os risos, as lágrimas e os aplausos, mas é só mais um show.
Sou somente ninguém.
-Sou ninguém.
Hoje consigo ver no que me tornei. Virei àquilo que era antes de ser ninguém.
Sou a imagem, a continuação de uma história que se fez, que se sonhou num outro alguém que hoje não é mais ninguém.
Sinto orgulho do ninguém que me tornei. Do orgulho do alguém que não me conheceu, mas que me moldou.
Acho graça da imagem que se faz da imagem que represento. Sou ninguém. Repito.
Não, não é uma luta, é a construção. É a unidade na multiplicidade, ou o seu oposto.
Há de ser nada, ou nada ser.
Lamento por não conseguir ver o ninguém que sou.
Não sou a velha história, faço parte, somente, da trajetória.
Deixe somente comigo o orgulho do que não fui.
Tenho a pele morena da mistura que se fez, sou a mutação.
Gosto quando me olha, mas sei que não me vê. Enxergas somente o alguém que não sou. Não consigo sentir que entende o ninguém que sou.
Faz parte do show os risos, as lágrimas e os aplausos, mas é só mais um show.
Sou somente ninguém.
domingo, 25 de abril de 2010
Esses dias eu chorei
Esses dias eu chorei. Chorei por chorar.
Chorei um choro sentido, um choro contido, um choro. Eu simplesmente chorei.
Veio sem razão, veio sem a noção, ele simplesmente veio e me tomou.
Ele veio e fez parte de mim.
O senti sendo criado e quando percebi já estava querendo partir.
Assim como qualquer outra necessidade física do ser humano, apareceu, fez parte de mim e se foi.
Esses dias eu chorei. Chorei por chorar.
E não foi difícil achar um motivo para ele crescer e ganhar força.
Assim como uma gargalhada, eu chorei.
Deixei que me tomasse. Deixei-me sentir essa sensação. Chorei até soluçar.
Chorei até a cabeça ficar pesada e os olhos incharem.
Esses dias eu chorei.
Da mesma forma que se ri, eu chorei.
Assim como às vezes eu sinto sono, eu chorei.Chorei um choro sentido, um choro contido, um choro. Eu simplesmente chorei.
Veio sem razão, veio sem a noção, ele simplesmente veio e me tomou.
Ele veio e fez parte de mim.
O senti sendo criado e quando percebi já estava querendo partir.
Assim como qualquer outra necessidade física do ser humano, apareceu, fez parte de mim e se foi.
Esses dias eu chorei. Chorei por chorar.
E não foi difícil achar um motivo para ele crescer e ganhar força.
Assim como uma gargalhada, eu chorei.
Deixei que me tomasse. Deixei-me sentir essa sensação. Chorei até soluçar.
Chorei até a cabeça ficar pesada e os olhos incharem.
Esses dias eu chorei.
22 de abril
Nunca ganhei na mega-sena, não ganhei um carro no sorteio do shopping. Não ganhei a viagem na rifa. Não aprendi a andar de skate, nem a surfar.
Nunca desci o rio de bóia, nem pulei de pára-quedas ou de asa delta.
Nunca dirigi um caminhão, nem comi ostra. Não chorei a morte do ídolo nacional, não sofri na copa do mundo.
Não senti as dores do parto. Nunca perdi o sono, nem engessei o cotovelo.
Mas já me decepcionei com sonhos.
Já ganhei quando perdi, e continuo ganhando.
A cada dia vejo a reafirmação da bela decepção e por isso continuo acreditando.
Hoje é 22 de abril de 2010. Tenho 29 anos, cinco meses e alguns dias.
Tenho uma família maravilhosa, que está crescendo sempre.
Tenho poucos amigos, muitos amores e outros tantos queridos.
O tempo vai passando, mas sou eu quem estou ganhando.
O cabelo vai caindo e liberando espaço para experiência.
Os dentes vão amarelando e colorindo o dia.
E aos poucos sei que me curvarei para o mundo, até o dia em que ele quiser que eu faça parte dele.
Nunca desci o rio de bóia, nem pulei de pára-quedas ou de asa delta.
Nunca dirigi um caminhão, nem comi ostra. Não chorei a morte do ídolo nacional, não sofri na copa do mundo.
Não senti as dores do parto. Nunca perdi o sono, nem engessei o cotovelo.
Mas já me decepcionei com sonhos.
Já ganhei quando perdi, e continuo ganhando.
A cada dia vejo a reafirmação da bela decepção e por isso continuo acreditando.
Hoje é 22 de abril de 2010. Tenho 29 anos, cinco meses e alguns dias.
Tenho uma família maravilhosa, que está crescendo sempre.
Tenho poucos amigos, muitos amores e outros tantos queridos.
O tempo vai passando, mas sou eu quem estou ganhando.
O cabelo vai caindo e liberando espaço para experiência.
Os dentes vão amarelando e colorindo o dia.
E aos poucos sei que me curvarei para o mundo, até o dia em que ele quiser que eu faça parte dele.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Anjos com tomate
Sobre uma toalha cor-de-rosa, deitada ao lado de uma pequena Pantera Cor-de-Rosa escrevo.
Descrevo.
Um instante que fotografo com a caneta prateada e com detalhes em cor-de-rosa.
A cama fica aos pés da janela de venezianas que parece fazer questão em exibir a luz do dia que ilumina a pele do meu joelho.
Nas paredes brancas, nenhum quadro, somente desenhos feitos com os movimentos do dia.
Um ventilador de teto para refrescar o corpo e um minuto sozinha para a mente.
De colorido, somente as roupas que secam dependuradas na cama ou atrás da porta.
Daqui posso ver o céu, algumas folhas da palmeira da casa do vizinho e um pedaço do telhado.
Tudo recortado em seis partes iguais, as grades me protegem do mundo de fora e me aprisionam no mundo aqui dentro.
Na segunda e na quinta divisão desse céu, dois pequenos anjos.
Uma escolha.
Hoje almocei anjos regados a molho de tomate e carne moída.
Mas assim como eu, estão presos a fios e linhas transparentes. Não há como fugir ou correr, não existe esconderijo.
A linha entrega o caminho seguido. Os anjos estão vulneráveis a ação do tempo.
Acalmaram, parecem entender o destino, aceitar a situação. Admirar da janela a chuva que amolece o corpo, desfaz a cor, o sol que resseca e quebra.
Descrevo.
Um instante que fotografo com a caneta prateada e com detalhes em cor-de-rosa.
A cama fica aos pés da janela de venezianas que parece fazer questão em exibir a luz do dia que ilumina a pele do meu joelho.
Nas paredes brancas, nenhum quadro, somente desenhos feitos com os movimentos do dia.
Um ventilador de teto para refrescar o corpo e um minuto sozinha para a mente.
De colorido, somente as roupas que secam dependuradas na cama ou atrás da porta.
Daqui posso ver o céu, algumas folhas da palmeira da casa do vizinho e um pedaço do telhado.
Tudo recortado em seis partes iguais, as grades me protegem do mundo de fora e me aprisionam no mundo aqui dentro.
Na segunda e na quinta divisão desse céu, dois pequenos anjos.
Macarrões dourados giram, balançam pra lá e pra cá, como se não soubessem em que mundo entrar.
Uma escolha.
Hoje almocei anjos regados a molho de tomate e carne moída.
Agora, sabendo disso parecem mais agitados na janela do quarto.
Mas assim como eu, estão presos a fios e linhas transparentes. Não há como fugir ou correr, não existe esconderijo.
A linha entrega o caminho seguido. Os anjos estão vulneráveis a ação do tempo.
Acalmaram, parecem entender o destino, aceitar a situação. Admirar da janela a chuva que amolece o corpo, desfaz a cor, o sol que resseca e quebra.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Eu sei
Tive uma estranha sensação.
Caminhei. Não estava embriagada, não estava anestesiada, mas era para direita que meu corpo seguia.
O chão estava distante dos meus pés por mais que nele estivessem apoiados.
Queria ter sentido o frio do corpo, mas foi o frio da ausência quem me possuía.
A pequena bolsa ainda ficou sobre a estante. As chaves não abriram mais portas. Ainda escuto seu assobio me chamar.
Meus olhos vazaram sem sentir dor, senti a ausência da dor, senti o oco. O vazio que me consumia.
Senti o desespero da falta, ou o desespero do excesso do oco. Não soube para onde ir, para a direita ou pela esquerda, não estava perdida, não tinha que ir, mas precisava seguir mesmo ficando estática.
Suei o suor da falta de exercício. Foi como o tempo voltasse, o tempo que passou, mas que ficou.
Senti sono mesmo sem estar cansada, quis dormir. Meu corpo queria desligar a sensação que minha mente queria inventar, ele quis dormir.
Apaguei as luzes e me banhei. A água estava mais fria do que quente, a pele reclamou, mas minha mente acordou. Esfreguei o corpo como se arrancasse parte da minha ausência de mim mesma.
Chorei até meu rosto inchar e sentir vergonha do som que saía da minha boca. Senti vergonha de mim mesma.
Chorei até meu nariz entupir. Meus olhos pesaram.
“Eu sei” era o que a minha voz dizia. Repetia para mim, como se eu mesma quisesse ouvir, como se eu não ouvisse ou se não fosse dona dos meus pensamentos. Falei. Repeti.
Minha cabeça pesou e ouvia seguidamente músicas estranhas que eu mesma havia escolhido.
Quis dormir, mas a cama ainda girava e as lágrimas não secavam. Achei que pudesse estar com febre, quis vomitar, senti frio, esfreguei um pé no outro. “Eu sei”.
Algo me puxava para a direita, mesmo que para a esquerda quisesse estar.
Caminhei. Não estava embriagada, não estava anestesiada, mas era para direita que meu corpo seguia.
O chão estava distante dos meus pés por mais que nele estivessem apoiados.
Tiraram meu chão.
Queria ter sentido o frio do corpo, mas foi o frio da ausência quem me possuía.
A pequena bolsa ainda ficou sobre a estante. As chaves não abriram mais portas. Ainda escuto seu assobio me chamar.
Meus olhos vazaram sem sentir dor, senti a ausência da dor, senti o oco. O vazio que me consumia.
Senti o desespero da falta, ou o desespero do excesso do oco. Não soube para onde ir, para a direita ou pela esquerda, não estava perdida, não tinha que ir, mas precisava seguir mesmo ficando estática.
Não tinha escolha e não escolhi. Esperei.
Suei o suor da falta de exercício. Foi como o tempo voltasse, o tempo que passou, mas que ficou.
O tempo que não voltou.
Senti sono mesmo sem estar cansada, quis dormir. Meu corpo queria desligar a sensação que minha mente queria inventar, ele quis dormir.
Mas não dormi.
Apaguei as luzes e me banhei. A água estava mais fria do que quente, a pele reclamou, mas minha mente acordou. Esfreguei o corpo como se arrancasse parte da minha ausência de mim mesma.
Chorei até meu rosto inchar e sentir vergonha do som que saía da minha boca. Senti vergonha de mim mesma.
Vergonha mesmo estando sozinha.
Chorei até meu nariz entupir. Meus olhos pesaram.
“Eu sei” era o que a minha voz dizia. Repetia para mim, como se eu mesma quisesse ouvir, como se eu não ouvisse ou se não fosse dona dos meus pensamentos. Falei. Repeti.
Minha cabeça pesou e ouvia seguidamente músicas estranhas que eu mesma havia escolhido.
Quis dormir, mas a cama ainda girava e as lágrimas não secavam. Achei que pudesse estar com febre, quis vomitar, senti frio, esfreguei um pé no outro. “Eu sei”.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Batateira de berço
Batateira de berço. Nasci, dei meus primeiros passos, minhas primeiras descobertas, minhas grandes amizades, meu primeiro beijo e meu primeiro amor em São Bernardo do Campo. Casei e tive meu filho em São Bernardo.
Em 1980 as grandes euforias dos movimentos sindicais já haviam se amenizado e assim como a flor da primavera, no dia 22 de setembro eu nasci. Minha mãe conta que foi um parto muito difícil, que parecia que eu não queria nascer, nem fórceps me tirava de lá, foi preciso um médico enorme sobre ela para me por pra fora, ou pra dentro desse mundo, dessa vida.
Na minha infância não passei por grandes problemas financeiros, nem nunca soube o que era sentir fome. Estudei em grandes colégios da região, participei de muitas brigas e muitas festas. Conquistei grandes amigos e, sobretudo tive a oportunidade de agregar a minha família parentes de coração.
Lembro de passar viradas do dia 24 para o dia 25 de dezembro dentro do carro, de ouvir piadas sem graça, de acompanhar sem entender conversas políticas. Vi meu pai rir, brigar somente com olhares e rir quando estava extremamente nervoso.
Fiz desenhos nas mesas do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Corri pelas escadas em algumas matinês de carnaval. Acompanhei conversas sérias em salas brancas e outras em bares.
Subi no palco, tive medo do elevador e me escondi atrás das pilastras do salão.
Foi em São Bernardo que aprendi a jogar baralho, aprendi a beber e me irritar com a fumaça dos cigarros. Foram muitos churrascos em oficinas com velhos chatos que bagunçavam o meu cabelo ou que tentavam arrancar uma palavra de uma criança muda.
Em São Bernardo também aprendi a dirigir carros, motos e a minha vida. Vi meu pai se entristecer com o que mais dedicou a sua vida. Senti ciúmes do sindicato e dos metalúrgicos, quando me esqueceu na escola porque estava lá ou com eles.
Foi no sindicato que tomei as minhas vacinas contra os vilões da saúde, que comprei minha camiseta estampada com o Raul Seixas. Era lá que a minha mãe fazia meus e de muitos outros exames de sangue, fezes e urina.
Foi no sindicato que olhei pela primeira vez ao microscópio e pude entender que havia seres menores, mas só hoje pude entender que foi lá também que pude acompanhar o crescimento dos seres maiores.
Lembro da minha mãe dizendo com carinho que um dia aquele prédio foi o mais bonito de São Bernardo. Contava-me histórias sobre o lugar e sobre aquelas outras tantas pessoas que faziam nó nos meus cabelos.
Hoje consigo reconhecer o quão importante aqueles velhos chatos eram pra cidade, para o meu pai, para a minha mãe, para o país e para mim. Consigo entender o significado daquele desenho do homenzinho rabugento que dizia “Hoje eu não to bom!”.
Nesse final de semana pude rever a história do país, de São Bernardo, da minha mãe, do meu pai e a minha. Assisti a construção do valor, do reconhecimento, da cultura e do amor.
Uma enorme sala lotada de pessoas queridas, que olhavam pra mim com carinho e diziam: “Ela é a do meio? Como está linda!”; “Seu pai foi um grande cara”; “Linda Inês!”; “Cadê seus irmãos?”; “Sua mãe não vem?”.
Não foi um dia qualquer, foi o dia em que grande parte da minha história estava reunida chorando e sentindo orgulho pela história do Cara.
Eu chorei nas cenas refletidas no telão que acalcam qualquer coração, mas chorei muito mais por conseguir entender o valor daquele sorriso que não pude dar quando era criança.
Levei a minha avó de 86 anos, nascida no Japão e que por volta dos 15 anos veio ao Brasil, teve 5 filhos. Que ainda mistura o vocabulário japonês ao português. Que acompanhou a luta de meu pai, a dedicação dele a família, mas, sobretudo aos agregados. Que acreditava na luta e que sonhava por trás dos pequenos olhos firmes.
Na maior parte do tempo se manteve quieta, comeu pipoca e tomou refrigerante, achou que as casquinhas dos petifours servidos eram de plástico, tomou a minha cerveja. Durante o filme, manteve o corpo projetado para frente, como se fosse ouvir melhor ou ler os lábios dos atores.
Quando a sessão chegou ao final pediu-me para que a levasse para cumprimentar o protagonista da história. Embora assediado, senti-me a obrigação de atender ao seu pedido, com muito custo consegui realizar o seu desejo. Com o corpo curvado para frente e a blusa azul clara com estampas amarelas abraçou e tirou fotos com o melhor amigo do meu pai.
Não sei o filminho que passou pela cabeça dela, mas chegamos em casa quase 00:00 e ela ainda estava disposta e não reclamou cansaço. Perguntei se ela gostou do filme, fez que sim com a cabeça e foi tomar banho.
No dia seguinte perguntei a minha tia se ela havia perguntado para a vó se tinha gostado do filme. Minha tia disse que sim, que de manhã havia chorado enquanto descascava verduras no quintal. E que somente naquele dia havia entendido as perdas da história.
Minha avó nasceu no Japão, mas também é batateira.
Em 1980 as grandes euforias dos movimentos sindicais já haviam se amenizado e assim como a flor da primavera, no dia 22 de setembro eu nasci. Minha mãe conta que foi um parto muito difícil, que parecia que eu não queria nascer, nem fórceps me tirava de lá, foi preciso um médico enorme sobre ela para me por pra fora, ou pra dentro desse mundo, dessa vida.
Na minha infância não passei por grandes problemas financeiros, nem nunca soube o que era sentir fome. Estudei em grandes colégios da região, participei de muitas brigas e muitas festas. Conquistei grandes amigos e, sobretudo tive a oportunidade de agregar a minha família parentes de coração.
Lembro de passar viradas do dia 24 para o dia 25 de dezembro dentro do carro, de ouvir piadas sem graça, de acompanhar sem entender conversas políticas. Vi meu pai rir, brigar somente com olhares e rir quando estava extremamente nervoso.
Fiz desenhos nas mesas do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Corri pelas escadas em algumas matinês de carnaval. Acompanhei conversas sérias em salas brancas e outras em bares.
Subi no palco, tive medo do elevador e me escondi atrás das pilastras do salão.
Foi em São Bernardo que aprendi a jogar baralho, aprendi a beber e me irritar com a fumaça dos cigarros. Foram muitos churrascos em oficinas com velhos chatos que bagunçavam o meu cabelo ou que tentavam arrancar uma palavra de uma criança muda.
Em São Bernardo também aprendi a dirigir carros, motos e a minha vida. Vi meu pai se entristecer com o que mais dedicou a sua vida. Senti ciúmes do sindicato e dos metalúrgicos, quando me esqueceu na escola porque estava lá ou com eles.
Foi no sindicato que tomei as minhas vacinas contra os vilões da saúde, que comprei minha camiseta estampada com o Raul Seixas. Era lá que a minha mãe fazia meus e de muitos outros exames de sangue, fezes e urina.
Foi no sindicato que olhei pela primeira vez ao microscópio e pude entender que havia seres menores, mas só hoje pude entender que foi lá também que pude acompanhar o crescimento dos seres maiores.
Lembro da minha mãe dizendo com carinho que um dia aquele prédio foi o mais bonito de São Bernardo. Contava-me histórias sobre o lugar e sobre aquelas outras tantas pessoas que faziam nó nos meus cabelos.
Hoje consigo reconhecer o quão importante aqueles velhos chatos eram pra cidade, para o meu pai, para a minha mãe, para o país e para mim. Consigo entender o significado daquele desenho do homenzinho rabugento que dizia “Hoje eu não to bom!”.
Nesse final de semana pude rever a história do país, de São Bernardo, da minha mãe, do meu pai e a minha. Assisti a construção do valor, do reconhecimento, da cultura e do amor.
Uma enorme sala lotada de pessoas queridas, que olhavam pra mim com carinho e diziam: “Ela é a do meio? Como está linda!”; “Seu pai foi um grande cara”; “Linda Inês!”; “Cadê seus irmãos?”; “Sua mãe não vem?”.
Não foi um dia qualquer, foi o dia em que grande parte da minha história estava reunida chorando e sentindo orgulho pela história do Cara.
Eu chorei nas cenas refletidas no telão que acalcam qualquer coração, mas chorei muito mais por conseguir entender o valor daquele sorriso que não pude dar quando era criança.
Levei a minha avó de 86 anos, nascida no Japão e que por volta dos 15 anos veio ao Brasil, teve 5 filhos. Que ainda mistura o vocabulário japonês ao português. Que acompanhou a luta de meu pai, a dedicação dele a família, mas, sobretudo aos agregados. Que acreditava na luta e que sonhava por trás dos pequenos olhos firmes.
Na maior parte do tempo se manteve quieta, comeu pipoca e tomou refrigerante, achou que as casquinhas dos petifours servidos eram de plástico, tomou a minha cerveja. Durante o filme, manteve o corpo projetado para frente, como se fosse ouvir melhor ou ler os lábios dos atores.
Quando a sessão chegou ao final pediu-me para que a levasse para cumprimentar o protagonista da história. Embora assediado, senti-me a obrigação de atender ao seu pedido, com muito custo consegui realizar o seu desejo. Com o corpo curvado para frente e a blusa azul clara com estampas amarelas abraçou e tirou fotos com o melhor amigo do meu pai.
Não sei o filminho que passou pela cabeça dela, mas chegamos em casa quase 00:00 e ela ainda estava disposta e não reclamou cansaço. Perguntei se ela gostou do filme, fez que sim com a cabeça e foi tomar banho.
No dia seguinte perguntei a minha tia se ela havia perguntado para a vó se tinha gostado do filme. Minha tia disse que sim, que de manhã havia chorado enquanto descascava verduras no quintal. E que somente naquele dia havia entendido as perdas da história.
Minha avó nasceu no Japão, mas também é batateira.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
E termina assim
E termina assim, sem explicação. Termina de novo e mais uma vez.
Termina sem final o que nunca começou.
Como a onda do mar que mesmo sem força aos poucos desmancha o enorme castelo de areia.
Construído com o tempo e muitas gotinhas de água misturadas a areia.
Que seca e se une uma a outra. Paciência.
Fica só a mancha escura no chão e depois as marcas de pegadas de cachorros, pessoas...constrói outra história, outro olhar, outra poesia.
Uma história que começa pelo final ou que termina no começo. Uma história.
Não uma linha, não um caminho. Uma sinapse. Um choque. Um momento.
Dias que somam meses e meses que somam anos e anos que não foram.
Procuro em cada detalhe um sentido, uma razão. Desaba.
Acabei antes que terminasse, antes que começasse. Borrou.
Borrou o desenho colorido feito com giz de cera, canetinha, purpurina e gliter. A traça comeu, o papel amarelou. A fita adesiva já não gruda mais.
Mas na parede ainda esta a marca que o papel fez com o tempo. Mesmo com tinta nova a marca ainda estará lá. E mesmo sem parede o lugar ainda será o mesmo. E a não-história se fez.
A purpurina já não tem o mesmo brilho. O tempo comeu. Estragou. Marcou. Mas eu estava lá pra sentir.
Eu vi a água se misturar a areia e virar castelo.
Senti o cheiro do papel e do giz.
Brinquei com a cola que secava nos meus dedos.
E estava lá quando a primeira onda chegou. A segunda. A terceira.
Acompanhei o caminho da traça.
Meu rosto brilhou quando assoprei o gliter.
Senti o peso no peito quando vi meu desenho manchar, meu castelo desmoronar.
Eu sabia que a onda ia chegar, que a traça gosta de papel. Mas eu deixei.
Eu assoprei a flor para que pudesse ver as pequeninas partes brancas voarem. Eu vi.
Não chorei, não gritei, mas eu estava lá quando não podia mais ler as palavras escritas a lápis, mas eu sabia que elas tinham sido escritas.
Acabou antes de a bandeirinha ser estiada. Acabou antes de eu aprender a assinar.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Cotidiano
Será que vai fazer frio ou calor? Levo guarda-chuva?
Que bonitas essas florzinhas amarelas no canteiro da Via Anchieta!
Mas cachorro no apartamento...preciso comprar uma casa.
Será que o filme é um culto a personalidade?
“Epocler, você mais leve” – Epocler não é remédio para emagrecer, não gostei dessa propaganda, aliás, não sou a favor de propagandas de medicamentos.
Que capacete é esse? Por que ele está usando um capacete cor-de-rosa?
Preciso comprar shampoo e mistura pra preparar a janta de hoje a noite, mas o dinheiro já está no final e preciso comprar pneus novos pro carro, os meus já estão carecas, tadinhos.
Ai, que trânsito é esse? Vou chegar atrasada. Não posso perder o emprego. A mensalidade da escola. E se estiver sem sinal da internet? Preciso arrumar mais dinheiro.
Será que a mãe melhorou? Podia ligar pra ela, né? To sem crédito, que saco. Precisava de um celular pós-pago. Não sei como vivíamos sem celular, ainda lembro dos orelhões vermelhos de ficha, depois ficaram azuis e com cartão. E os bips, aquilo era muito ruim, a mulher do outro lado da linha não entendia nada.
Nossa, motoqueiro, de novo, sempre tem acidentes com motoqueiros. Acho que foi feio.
Kopenghagen, antes pensava em chocolate, nunca comi, muito caro.
Será que o recurso do projeto vai ser aprovado? A verba só dá para mais seis meses.
Ai tiazinha...não quero balas, tadinha tão velhinha vendendo balas no farol. Preciso ajudar a pagar o convênio da minha avó.
Hoje Kopenhagen é sinônimo de efeito estufa, não é mais só chocolate.
São tantos meninos dormindo nesse asfalto quente. Ouvi na televisão que ficam por até nove meses sem tomar banho.
Já tem enfeites de Natal! Será que vou conseguir comprar presentes esse ano?
Também queria ter meu nome em uma via pública. Bom Pastor, quem foi Bom Pastor? Será que tem Boa Mãe, Bom Pedreiro, Bom Técnico Reprográfico?
A crise chegou leve no Brasil. Vamos sediar as Olimpíadas de 2016, mas o mundo acaba em 2012. Será que é no começo, no meio ou no fim do ano? Quanto tempo eu ainda tenho? Devo gastar minhas economias? Comprar meu cachorro?
Que imbecil! Bateu o guidão da moto no meu carro e nem pediu desculpas!
Ela disse que o irmão dela morreu na segunda-feira, parece que foi negligência.
Ar condicionado faz mal, mas está tão calor. Já é verão?
Será que o meu vestido é curto? Ainda bem que já acabei a faculdade, mas não acho que aquilo fosse um vestido, parecia uma blusa, tenho uma parecida só que é preta.
Cor-de-rosa, as rosas tem mais de uma cor. Por que o amarelo não é cor-de-banana? Acho que a rosa mais famosa é a vermelha, não a cor-de-rosa.
Dirigindo em São Paulo aprendi a usar a buzina. Por que não usam setas? Nem olham para o lado?
Se eu fumasse acenderia um cigarro, se não estivesse dirigindo tomaria uma cerveja. Mas e essas leis?
Cheguei! Atrasada, mas cheguei. Cansada, com calor, mas pelo menos não dei sete tiros no carro que me fechou na rua, nem esqueci meu filho dentro do carro. Hoje.
Acho que este leite está azedo!
Não posso esquecer que hoje vence a quadragésima sétima parcela do apartamento.
Queria um cachorro.
Que bonitas essas florzinhas amarelas no canteiro da Via Anchieta!
Mas cachorro no apartamento...preciso comprar uma casa.
Será que o filme é um culto a personalidade?
“Epocler, você mais leve” – Epocler não é remédio para emagrecer, não gostei dessa propaganda, aliás, não sou a favor de propagandas de medicamentos.
Adoro ele, ícone da história, figura fantástica!
Que capacete é esse? Por que ele está usando um capacete cor-de-rosa?
Preciso comprar shampoo e mistura pra preparar a janta de hoje a noite, mas o dinheiro já está no final e preciso comprar pneus novos pro carro, os meus já estão carecas, tadinhos.
Ai, que trânsito é esse? Vou chegar atrasada. Não posso perder o emprego. A mensalidade da escola. E se estiver sem sinal da internet? Preciso arrumar mais dinheiro.
Será que a mãe melhorou? Podia ligar pra ela, né? To sem crédito, que saco. Precisava de um celular pós-pago. Não sei como vivíamos sem celular, ainda lembro dos orelhões vermelhos de ficha, depois ficaram azuis e com cartão. E os bips, aquilo era muito ruim, a mulher do outro lado da linha não entendia nada.
Ontem ela desmaiou.
Nossa, motoqueiro, de novo, sempre tem acidentes com motoqueiros. Acho que foi feio.
Kopenghagen, antes pensava em chocolate, nunca comi, muito caro.
Será que o recurso do projeto vai ser aprovado? A verba só dá para mais seis meses.
Ai tiazinha...não quero balas, tadinha tão velhinha vendendo balas no farol. Preciso ajudar a pagar o convênio da minha avó.
Hoje Kopenhagen é sinônimo de efeito estufa, não é mais só chocolate.
São tantos meninos dormindo nesse asfalto quente. Ouvi na televisão que ficam por até nove meses sem tomar banho.
Já tem enfeites de Natal! Será que vou conseguir comprar presentes esse ano?
Também queria ter meu nome em uma via pública. Bom Pastor, quem foi Bom Pastor? Será que tem Boa Mãe, Bom Pedreiro, Bom Técnico Reprográfico?
Já to cansada e nem acordei direito.
A crise chegou leve no Brasil. Vamos sediar as Olimpíadas de 2016, mas o mundo acaba em 2012. Será que é no começo, no meio ou no fim do ano? Quanto tempo eu ainda tenho? Devo gastar minhas economias? Comprar meu cachorro?
Amanhã é feriado, queria ir a praia, mas tem casamento.
Preciso emagrecer, minhas meias estão furadas.
Preciso emagrecer, minhas meias estão furadas.
Que imbecil! Bateu o guidão da moto no meu carro e nem pediu desculpas!
Ela disse que o irmão dela morreu na segunda-feira, parece que foi negligência.
Ar condicionado faz mal, mas está tão calor. Já é verão?
Será que o meu vestido é curto? Ainda bem que já acabei a faculdade, mas não acho que aquilo fosse um vestido, parecia uma blusa, tenho uma parecida só que é preta.
Cor-de-rosa, as rosas tem mais de uma cor. Por que o amarelo não é cor-de-banana? Acho que a rosa mais famosa é a vermelha, não a cor-de-rosa.
Dirigindo em São Paulo aprendi a usar a buzina. Por que não usam setas? Nem olham para o lado?
Se eu fumasse acenderia um cigarro, se não estivesse dirigindo tomaria uma cerveja. Mas e essas leis?
Cheguei! Atrasada, mas cheguei. Cansada, com calor, mas pelo menos não dei sete tiros no carro que me fechou na rua, nem esqueci meu filho dentro do carro. Hoje.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Paciência

Queria poder enxergar o crescimento.
As partes se esticando, como se quisessem alcançar o céu.
O organismo que corre escondido à procura de sustento.
Um movimento fixo. Mutante. Invisível.
Não foge da claridade, nem compra proteção.
O corpo mutante, paciente, envelhece na busca da luz.
As cores despencam e estilhaçam ao chão exalando perfumes que se sente o gosto.
Não esfrega, nem desinfeta a pele enrugada.
Cria meios para a podridão admirável.
Abriga aproveitadores sem moeda de troca.
Quando fora de casa, raptada e sozinha, não chora nem ri.
Parada, admiramos a sua morte.
Admiro a paciência de uma árvore.
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